Quinta-feira, Novembro 19

política 204



'...ai, as pessoas não querem é trabalhar... sabe, o meu filho é responsável pelas contratações de uma empresa de limpeza, e ele bem precisa de gente para trabalhar, e não encontra quem queira...'
'pois, é uma vergonha, preferem ficar em casa a receber o rendimento mínimo...'

... Não resisti a dizer às duas velhinhas de ar bem-vestido:
'se calhar se ele oferecesse um salário melhor, encontrava logo gente para o serviço...'
E a senhora à minha frente:
'pois, realmente é para ganhar o salário mínimo...'.
E eu, caracóis e sorrisinho inofensivo:
'... mas diga-me, a senhora consegue viver um mês inteiro com 450euros?'

'não, não consigo. mas é melhor que nada...'
(que é a lógica de quem acha que os pobres precisam de menos coisas que os outros para viver...)

Foi meia hora a conversar com elas mais os outros que se juntaram à viagem: não é possível viver com 450euros -tirem o dinheiro dos transportes, mais nem que seja uma sopa e um café ao almoço ... e fica pouco. A isso, tirem a água, a luz, a renda, a comida... E a 'conta' deixa de bater certo - o salário mínimo não chega para viver, sob quaisquer parâmetros.

Além disso... não vos parece que um salário mínimo que não chega para viver é um convite descarado à 'economia paralela', a tal que não paga impostos e que custa muito dinheiro ao estado?
... As pessoas, para sobreviver, têm de ter outros 'esquemas', cumulativamente ao salário mínimo - acumular trabalhos não declarados, uns subsídio(zito)s quaisquer...

Pensem lá: uma pessoa que 'faça limpezas' não preferirá trabalhar à hora, a dinheiro vivo sem impostos, a 6€ ou mesmo que seja 5 euros à hora, em casa de um ou vários alguéns ? É que 5€ x 8h x 20 dias = 800€. Sempre é melhor que os 400 que ganhará numa empresa de limpezas...

(uma forma de contornar isto é decretar que quem ganhe menos de 1000€ por mês não pague impostos de nenhum tipo - nem IRS, nem Segurança Social, nem nada.
outra maneira é subir os salários mínimos para um mínimo decente...

O valor actual do salário mínimo é um desincentivo ao trabalho, é um insulto a quem trabalha. E é um erro político cósmico...)
.

Segunda-feira, Novembro 16

a bíblia amarela


Se o Saramago perguntar por mim, digam-lhe que ando a ler a bíblia amarela ... e se virem uma miúda no '204' (stcp rules!!!) das 8 às 9 da manhã e das 7 às 8 da noite, a ler muito compenetrada, sou eu. (Agora em vez de olhar para a traseira de um automóvel deprimente no pára-arranca, levanto-me mais cedo (ainda mais cedo...) e vou de bus. E leio, leio, leio...).

Este é o livro mais informativo e brutal que eu já li. Conta a história do capitalismo avançado - passando pelas experiências de capitalismo desregulado imposto por esse mundo afora (por coup d'état, por empréstimos dos FMI e quejandos com obrigações de seguir à risca as prescrições económicas liberais...). Documenta e apresenta a forma como chegámos aqui hoje - à privatização infinita, à guerra infinita, à miséria infinita, ao fim dos direitos sociais dos trabalhadores, à regressão dos estados sociais... e de como as ideias peregrinas de uns certos senhores economistas neoliberais (que a terra seja muito pesada sobre o Milton Friedman) se tornaram o paradigma económico-social vigente...

Pode ser lido por qualquer pessoa (tipo, não é politiquês), é apaixonante,
é-f-a-n-t-á-s-t-i-c-o.

(já que eu não sou como o Marcelo e não ando praí a recomendar tudo o que se publica, aceitem lá a recomendação, vão ler. se tiverem sugestões na mesma linha, let me know...merci, monsieur le paysan... )

.

Quinta-feira, Novembro 12

'Onde param os arquitectos portugueses?'

«Agora que se repetem as eleições para a Direcção Nacional da Ordem dos Arquitectos, é porventura importante perguntar onde tem parado os arquitectos portugueses nos tempos mais recentes.

Quando há 10 minutos atrás se abateu o silêncio ensurdecedor sobre o facto do primeiro-ministro português assumir a autoria do que podem ser considerados crime estéticos e uma aberração cultural, pareceria lógico perguntar onde param os arquitectos portugueses.

Agora também urge perguntar onde eles param quando, numa espécie de projecção suicida das tendências vigentes entre a população portuguesa, é esperada uma participação de cerca de 15% nas eleições para a Ordem dos Arquitectos.Falta de auto-estima da classe profissional? Falta de opções? Ou pura falta de interesse? Alguma coisa está certamente em falta. Face a outras classes profissionais liberais que disputam árdua e publicamente aqueles que vão representar os seus destinos, os arquitectos portugueses espelham bem o estado corrente do país.

Não é de admirar que exista um absentismo absoluto. Com a explosão "democrática" dos cursos de arquitectura, os arquitectos deste país são hoje uma perfeita amostra demográfica do país que temos. E ainda bem. Porém, o que é eventualmente mais grave é que, apesar da sua formação superior, os arquitectos podem, assim, estar a ecoar a cultura cívica - ou a crise social de que falava a Sedes - com que hoje contamos em Portugal.

Comecemos pela crise. Não é de excluir a hipótese de que o absentismo eleitoral dos arquitectos se explica por razões bastante prosaicas. A maior parte dos arquitectos, nomeadamente os mais jovens e desfavorecidos da classe não votam porque... não pagaram as quotas! E porque é que não pagaram as quotas? Porque estão desempregados ou porque são tão mal remunerados que tem naturalmente que remediar outras necessidades mais básicas. Interessante, não é?

Isto sugere imediatamente que, se estão verdadeiramente interessados na participação eleitoral, os candidatos aos órgãos nacionais da Ordem dos Arquitectos deviam acordar um pacto de regime súbito: uma amnistia - ou, ecoando a extraordinária flexibilidade legislativa portuguesa, uma alteração estatutária temporária - para permitir que todos votassem nestas eleições.

Adiante. Subsistem ainda algumas outras possibilidades para justificar o absentismo geral dos arquitectos.

Também é verdade que muitos dos 16.000 arquitectos a que me refiro estão no estrangeiro. Face a uma tendência autofágica da classe arquitectónica portuguesa - que também lembra outra coisa qualquer - muitos dos arquitectos recentemente formados decidiram, pura e simplesmente, emigrar.

Isto é, o investimento e a permissividade do Estado na formação superior desta classe traduz-se, como já acontecia com cientistas e outras especializações de ponta, em exportação de cérebros ou de mão de obra competente, enquanto por aqui nos vamos lamuriando de desordenamento do território. Interessante, não é?

Esta é, aliás, uma resposta à questão que dá título a este artigo que combina perfeitamente com o equívoco ético e estético que recentemente envolveu o engenheiro civil José Sócrates. De facto, para quê pagar o custo dos serviços, dos recursos humanos e da competência técnica nas quais o Estado investiu os impostos dos contribuintes, se ainda há por aí uns chico-espertos que dão conta do recado e da paisagem?

Os chico-espertos - que às vezes até são arquitectos pois, afinal, eles também "andem aí..." - saem mais barato, têm uns contactos na Câmara local que "facilitam a coisa" e até foram os primeiros a perceber que mais vale fazer o gosto ao dedo do cliente, que isto não está para modas.
Mas, perguntar-se-á então, a arquitectura não estava na moda?
Depois da celebração e da celebridade de Siza Vieira e de Eduardo Souto Moura, os arquitectos não deveriam andar por aí felizes da vida?
Não adquiriram prestígio social e profissional?
Não obtiveram reconhecimento no "estrangeiro"?
Não tiveram, nos últimos 15 anos, maior exposição mediática interna do que médicos, advogados e engenheiros?

Tendo eu realizado um doutoramento sobre a visibilidade da arquitectura em meios generalistas como o jornal O Público, posso assegurar que todas estas hipóteses são sustentadas e confirmadas por dados objectivos. À excepção, claro, da parte da felicidade.

Curiosamente, em Portugal, a celebridade, a projecção e o prestígio não fertilizaram o campo. Deve ser uma característica endógena. Ou o facto de, apesar das aparências, sermos um país estruturalmente pobre.
As circunstâncias mudam e as conjunturas também e, depois de uma prolongada ascensão demográfica e mediática, os arquitectos portugueses parecem, de novo, ter desaparecido para parte incerta.

Apesar das campanhas do "direito à arquitectura" - já agora, algum não arquitecto ouviu falar disto? - os portugueses ainda não parecem estar dispostos a pagar a mais-valia do serviço arquitectónico.
Isto também justifica a ausência dos arquitectos.

E donde vem o problema? Será que os portugueses não valorizam ou não podem valorizar a sua qualidade de vida ao nível de outros países europeus? Será que não podem, pura e simplesmente, pagar os serviços de um arquitecto preferindo assim entregar-se assim às competências dos chico-espertos? Será que têm de facto a sua própria cultura de gosto e preferem decidir por si? Ou será que a tabela de honorários dos arquitectos é desadequada à realidade do país? Ou serão as regras de mercado que estão a distorcer a oferta e a procura? Ou acontecerá, afinal, simplesmente, que os arquitectos deviam ser pagos por área a edificar e respectivo preço médio oficial de construção em vez de auferirem remunerações que flutuam com o preço final de obra - assim se acabando com muitos jogos de bastidores que prejudicam clientes e destinatários e assim se esvaziando também as distorções deontológicas que fazem com que seja um contrasenso económico para o arquitecto invistir tempo e recursos na redução de custos de obra do seu cliente?

Das mais gerais às mais prosaicas, estas, como muitas outras, são questões que justificam uma tomada de consciência e de posição dos arquitectos e dos seus legítimos representantes face à imagem que projectam de si próprios enquanto classe profissional.

Dado o contexto particular da nossa auto-proclamada "West Coast," talvez os portugueses ainda não tenham percebido, de facto, qual o papel que a arquitectura pode desempenhar no seu dia-a-dia e na sua qualidade de vida colectiva.

Afinal, a maioria dos portugueses só sabem de longe da vã gloria dos centros culturais desenhados por arquitectos de "qualidade arquitectónica reconhecida" que, entretanto, tem as suas portas encerradas por faltas de verbas, programas e atractivos. E alguns mais iluminados só sabem que se tiverem dinheiro para investir em condomínios privados de luxo é bom que haja um "arquitecto de renome" envolvido.

Visto que assim já sabemos onde param os portugueses, onde param, entretanto, os arquitectos portugueses?

Onde param os candidatos a estas eleições da Ordem dos Arquitectos, esses que devíamos estar a ver e ouvir nos media de massa a exporem os seus programas, as suas opiniões públicas, as suas posições, as suas diferenças, as suas reflexões e proposições sobre o estado da prática da arquitectura em Portugal?

Onde param, neste preciso momento, as luminárias da arquitectura portuguesa, essas que prometeram mais intervenção crítica e social?

Onde param os críticos de arquitectura e os formadores de opinião, esses que, neste preciso momento, deviam estar a contrapor visões e perspectivas sobre o que precisa de mudar nos consensos excessivos em torno das vias únicas que actualmente caracterizam a arquitectura portuguesa?

E, para além dos emigrados, dos desenrascas e dos dignos representantes da geração rasca, onde param esses "jovens arquitectos" que constituem a maior parte dos arquitectos inscritos na Ordem e que agora se remetem, como é sua condição geracional mais vasta, a um silêncio comprometido com o status quo?

Por este andar, onde vão parar os arquitectos portugueses?»


Pedro Gadanho, arquitecto (fevereiro 2008)
.

Terça-feira, Novembro 10

Bairro Social VS Habitação Social


A rua mais odiosa do Porto é aquela chamada ironicamente Rua do Progresso - a que passa acima do Bairro do Aleixo, entre este e o condomínio fechado que construiram acima (em que os apartamentos só foram vendidos aos preços absurdos a que foram sob a promessa velada de que o 'Aleixo' iria abaixo um dia destes - que isto de pobres com direito a vista de rio é coisa que nunca se viu...).
Nessa rua, de um lado há um relvado verdinho e seguranças que vêm perguntar a quem pára 'o que estão ali a fazer' (?!!!) - do outro, há putos a brincar no meio do lixo e cadáveres esquisitos a arrastarem-se ligeirinhos para a primeira torre...

Os bairros sociais do Porto alojam mais ou menos 20% da população da cidade. Em termos urbanos, parece-me que há poucas ideias piores do que juntar os 'pobres' todos num mesmo lugar (digam o que disserem os políticos em campanha que eu nunca ouvi falar de um político que morasse em bairro social nenhum...).
Havendo excepções, morar 'num bairro' é, em geral, levar já um estigma às costas, de cada vez que se dá a morada, e é meio caminho andado para existirem guettos urbanos - as hipóteses de existirem problemas sociais aumentam proporcionalmente ao tamanho do bairro, ao seu afastamento da da malha urbana (veja-se por exemplo o Cerco do Porto) e ao nível de degradação do edificado...

Nos últimos anos, a gerência CMP-Rui-Rio fez uma aposta (estão sentados?) correcta, na minha opinião, ao apostar na requalificação das casas camarárias (... note-se que o Bairro do Aleixo eles querem demolir em vez de recuperar, não por causa de possíveis dificuldades técnicas mas antes por causa dos tais senhores das tais gaiolas douradas mais acima, que não acham piada nenhuma à vizinhança...).

...Claaaro que poderíamos argumentar que a CMP começou eleitoralisticamente por fazer obras nos bairros 'visíveis a partir da VCI'.
...Claaaro que podíamos dizer que enquanto ainda há casas camarárias sem casa de banho completa (!!!) as obras de exterior que-dão-no-olho não podem ser a prioridade...

...Mas, à parte disto, e analisando o que foi feito, a CMP não foi só 'pintar a cara' dos bairros em que interveio (como o Valentim fez estes dias no Bairro do Monte Crasto, em Gondomar). Mudaram caixilharias e isolaram termicamente os edifícios, melhorando as condições interiores de habitabilidade dos mesmos. Muito bem. Mas nada disto resolve o problema da habitação social futura.

Qual deveria ser a política do BE quanto à habitação social? Numa altura em que o centro do Porto se prepara para ser gentrificado, elitizado (os betinhos já vêm beber copos, já saem da Foz e já começam a perder o medo do centro) há que pensar se queremos uma cidade a dois tempos, em que há o condomínio fechado, o bairro degradado... e uma rua no meio, com pobres e ricos isoladinhos cada um em seu canto.

... Acho que quer as 'gaiolas douradas' quer os bairros sociais são erros cósmicos no construir de cidades. E há formas de lidar com estes problemas todos: no sistema holandês, por exemplo, uma parte dos impostos devidos por quem quer construir qualquer tipo de habitação colectiva (prédios, urbanizações de moradias etc) é pago 'em géneros' - uma percentagem das habitações construídas é obrigatoriamente atribuída à habitação social. Resultado? Mistura... e cidade.

.




Sexta-feira, Outubro 30

NÃO ALDRABES E FAZ

O que fazer para chegarmos à tal maioria social de esquerda de que se fala, (essa que substituirá pacificamente o capitalismo pelo socialismo) se as gentes votam mais no Rui Rio, no Sócrates ou no 'roubo mas faço'' (na versão 'roubar-roubar' ou no mais discreto e aveludado crime de 'roubar direitos e qualidade de vida por decreto') ... do que no Bloco de Esquerda??

Esqueçamos por momentos os cínicos surfistas do neoliberalismo, desconsideremo-los como parte dos velhinhos de espírito que nunca serão parte da solução. Esses, os que lucram com os salários baixos e que preferem pagar os serviços privados de educação, saúde ou reformas para si próprios a ter um estado social de qualidade, para todos ou que preferem usar o estado como seguradora dos seus jogos de azar especulativo-financeiros... esses não contam para esta história nem são a maioria em portugal.

A maioria das pessoas não lucra com o sistema capitalista - é antes por ele oprimida, passando num piscar de olhos de consumidor imprescindível a 'parte dispensável' face à crise e à quebra das 'margens de lucro'. Como se explica, então, que, mesmo assim, a maioria defenda e perpetue o mais-do-mesmo, votando regularmente no centrão?

Será que isso pode ser sinal de que maioria das pessoas acha que está tudo bem na política em Portugal e no Mundo e que o sistema liberal é-que-é? Ou pensarão se calhar que o socialismo é um modelo velho e mau, pesado, burocrático e, potencialmente fundamentalista e violento? Ou será que acham que é tudo igual e o BE, ali ao lado no boletim do voto, se estivesse no poder também 'iria roubar' ou 'não fazia'? Ou será que não nos explicámos bem, que não fazemos passar a mensagem, será que não há formação e debate político e ideológico suficientes, no bloco e na sociedade?

... Calcem lá as sapatilhas dos que nasceram em fins de 70 ou inícios de 80 e percebam porque é que os meus não querem ter nada a ver com qualquer partido político, porque é que sentem que a forma-partido está queimada e que não será a partir dela que se dará a mudança social necessária - eles são os que viram os direitos laborais e de cidadania das gerações anteriores a esfumarem-se em códigos de trabalho esclavagistas, os que sempre assistiram à impunidade do crime e à má gestão do que é público, e que são, agora, a base da cadeia alimentar laboral: trabalho a soldo, mal pago, sem direito a estabilidade, a horas extraordinárias, a férias, doença, reforma ou greve.
Esta é gente que nasceu já na era da globalização-em-curso, vendida como 'interminável e imparável', num suposto steady-state de progresso e estabilidade através do equilíbrio da competição entre os mais fortes, aos quais promete a liberdade total, e os mais fracos, condenados à exclusão e à miséria, relativa ou absoluta.

A maioria das pessoas que me cercam, esses late-twenties-early-thirties, os amigos dos amigos e os desconhecidos que param para conversar, são gente descrente e desconfiada no mundo e na política. Porque a política e o mundo já vieram servidos em unidose-para-microondas, numa trama apertadinha em que, para nos adaptarmos à cultura em que nascemos, tivemos de aprender a aceitar a exploração associada à produção de tudo o que se cosumimos, aqui, do outro lado do mundo e sobretudo na guerra lá longe - por petróleo e/ou poder, em directo, fria, cínica, 'preventiva', permanente.

Não, essa gente toda não sente que possa mudar o mundo. Nunca viram os políticos a pôr em causa ou a abrir à discussão nada de muito importante, (como o sistema de trocas mundial, os direitos e os deveres comunitários ou o como queremos trabalhar), foram ensinados a contarem só com eles mesmos e a procurar o esquema que permita, individualmente, ganhar a vantagem competitiva sobre os seus pares. Não participam porque não acreditam nas estruturas que há porque não acreditam que eleger A ou B mude alguma coisa. Descrêem a representatividade porque esta sempre os lixou e não sentem que investir numa luta, conjunta, com outros, faça alguma diferença.

Sobretudo, acham que os partidos são todos iguais: votam no menos mau, e desconfiam, sempre... e estendem essa desconfiança ao Bloco.

Enquanto o BE se parecer tanto com os outros todos, nas campanhas, nos discursos e na centralização das decisões, no rodopiar à volta da comunicação social e da imagem de um ou vários líderes, enquanto o seu funcionamento interno não for transparente - na gestão e organização dos recursos disponíveis, na determinação de objectivos a curto, longo e médio prazo e até na escolha (e não apenas ratificação) dos representantes... não contem com esta gente.

Mesmo que votem no Bloco de vez em quando - estas pessoas não darão fidelidade acrítica, militância ou a participação necessária (que o voto não é suficiente) enquanto o BE não der o exemplo de dentro para fora, enquanto não largar o vício das 'análises políticas pela rama', reclamando os sucessos e deixando os fracassos para a 'conjuntura' ou outra qualquer mãe solteira, na linha do 'está tudo óptimo, viva o Bloco, camaradas, deixem lá as autárquicas que as pessoas gostam é do Alberto João e do Valentim, paciência, não se podem ganhar todas, reforçámos o aparelho e o grupo parlamentar e parlamentar-europeu e isso é que interessa, muitos parabéns a quem fez as campanhas (tenham sido chamados para decidir 'o que' e 'como' fazê-las, ou apenas para arruadas de urgência por causa das câmaras da televisão), estivémos todos muito bem e agora lá vem outra vez o ritmo maluco do carrocel dos decisores do mundo que nem dá tempo para discutir com vocês, até daqui a uns anos...'

Para angariar a confiança política desta gente, desconfiada e com razão, o Bloco tem de mostrar que consegue organizar um movimento-exemplo do mundo novo que propõe - um Bloco2.0, uma enzima editável na sua forma e conteúdo, um possibilitador de transformação que apoia (e não determina), que faz fazer. Trabalho de base, formação política, troca de informação - estímulos e receptividade da própria estrutura para que todos os militantes possam construir o ideário e a prática bloquista, que serão a medida da densidade teórica e prática do movimento, experimentado, corrigido, reinventado. Só esse rumo poderá, na minha opinião, encher de gente o Bloco, só assim o bloco terá a credibilidade para ser alternativa.

... Chegou a altura, mas é, de ouvirem o Manel Cruz (foge, foge, bandido!, ornatos violeta), um de nós, que não há como fugir à ideia, não dá para cortar etapas nem para simplificar mais do que isto: NÃO ALDRABES E FAZ.

(este texto escrito para integrar a publicação Objectivo Socialismo: Bloco, que fazer? da Esquerda Nova, tendência bloquista de que eu faço parte - cliquem no link e vão lá ver!!)
.

Segunda-feira, Outubro 19

dez-a-seis

Em 2006, por proposta do Bloco de Esquerda, o parlamento português aprovou a chamada Lei da Paridade, com a imposição de uma quota mínima de um terço de mulheres nas listas para eleições legislativas, autárquicas e europeias. Ou seja, pelo menos 33,3% das listas apresentadas às eleições são mulheres, obrigatoriamente *. Não parece muito, já que as mulheres são mais de metade da população, mas é: há menos mulheres que homens a 'fazer política'.

Face a este problema, e como não há ideias mais originais...

(como por exemplo reduzir a carga horária laboral das pessoas, (homens ou mulheres), que usam parte do seu tempo para trabalhos sociais/organizativos necessários ao funcionamento normal da sociedade, como tratar das crianças, dos idosos, das lides das casas, etc, -e isso nem me parece difícil de quantificar ou aplicar... ou talvez punir exemplarmente as empresas que discriminam trabalhadoras de qualquer maneira, etc etc etc e permitir que as mulheres tenham mais tempo para o trabalho cívico...)

... lá foi instaurada a Lei da Paridade (que funcionou lindamente nos países nórdicos, ao que consta), e portanto, mais mulheres foram 'alistadas' por cada partido a concorrer à Assembleia da República. Pela lógica, mais mulheres deveriam ser hoje deputadas. Esse era o objectivo*.

Bom... como dizê-lo de uma forma suave... hum... FALHOU.Embora as listas candidatas à Assembleia fossem todas compostas por pelo menos um terço de mulheres...
há mais deputados
homens, nesta nova legislatura, do que na anterior
...
o que significa que cada partido preencheu a 'quota mínima de mulheres' nas listas mas empurrou as mulheres para lugares não elegíveis... (ou então foi muuuito azar...).

... No Bloco de Esquerda, por exemplo, enquanto o número geral de deputados duplicou (de 8 para 16), o número de deputadas não duplicou. Apesar de, como partido pioneiro na defesa da paridade, ser expectável que o número de mulheres fosse próximo da metade representativa do universo de votantes... elas são só 6 em 16.

Ora*, eu não acho que isso seja necessariamente mau (espero que todos os deputados bloquistas sejam ferozes defensores da igualdade de direitos entre homens e mulheres...) - mas, se era um objectivo... então, era melhor repensarmos o modus operandi, que o mundo, afinal, não se muda (só) por decreto... (e as leis que funcionam bem no norte da europa raramente se ajustam à realidade sul-europeia)

*caso ainda não tenha reparado, eu sou contra as quotas... mesmo sendo bloquista...

.

Sábado, Outubro 17

Proletarização em curso


«Há uma coisa que me anda a incomodar há já algum tempo, a realidade da arquitectura e da vida dos arquitectos, nos dias de hoje e sobretudo da minha geração. Bom, certamente, a realidade que eu conheço não é uma absoluta para toda a gente, mas há verdades que a maioria das pessoas desconhece e que os arquitectos por vergonha, ou pena de si próprios tentam esconder e muitas vezes mentem sobre as condições em que vivem.

Eu fico incomodada, porque eu sei a verdade e quando a conto ninguém acredita em mim e eu acho que os arquitectos só têm a ganhar em dizer a verdade, porque enquanto se mentir sobre uma série de temas, eles nunca vão ser reconhecidos como um problema e não sendo reconhecidos como problema, nunca vão ter uma solução.


A verdade é que nos dias de hoje a Arquitectura não é um bem necessário e fundamental, a arquitectura é um luxo. Eu estudei, como agora estudam outros, a acreditar que a arquitectura era essencial para construir um mundo porque reunia funções, técnicas, estéticas e sociais para descobrir que estávamos a falar de um mundo de fantasia porque no mundo real a arquitectura é um produto de luxo apenas acessível por alguns.

A verdade é que esta definição da arquitectura agrada à maioria dos arquitectos porque se sentem valorizados por protagonizar uma actividade associada ao luxo e à exclusividade, quando na realidade a função do arquitecto fica totalmente aniquilada,e a anulação da necessidade da arquitectura é apoiada inconscientemente pelos arquitectos quando estes não reclamam para si não só os direitos como os deveres da sua profissão.

A verdade é que todos queremos trabalhar em grandes projectos, grandes ateliers, onde não hajam orçamentos, onde possamos cumprir os nossos caprichos em vez de corresponder ás necessidades de outras pessoas.


A verdade é que quando acabamos o curso e conseguimos o nosso primeiro trabalho vamos iludidos e pensamos que vamos fazer parte de uma equipa e isso não acontece na maior parte dos casos. A verdade é que os arquitectos vivem em constante medo e insegurança porque quando se acaba um projecto nunca se sabe se vem outro a seguir, porque os clientes não pagam, porque os projectos públicos não têm financiamento, porque não sabem se vão ser despedidos porque se forem despedidos não têm direito a subsidio de desemprego, porque são uma classe à parte e ninguém percebe o que fazem mas toda a gente acha que os arquitectos têm um vidão e não dá jeito perder a imagem de sucesso que está associada ao titulo.

A verdade é que os arquitectos da minha geração ganham pouco, tão pouco que vivem até tarde em casa dos pais ou se vivem sozinhos levam o dia a fazer contas de cabeça. A verdade é que alguns nem sequer ganham (muitas vezes porque se sujeitam e prejudicam aqueles que não se sujeitaram). A minha mãe diz-me que a filha de não-sei-quem é arquitecta e está muito bem e ganha muito bem em Portugal porque é que eu não volto. E que a não-sei-quantas também estava muito bem mas não gostava do atelier e despediu-se.

A verdade é que nem a filha de não-sei-quem está muito bem, nem a não sei quantas se despediu em plena crise.


A verdade é que aqui em Madrid que é a minha realidade, em meia-jornada (part-time) se ganha ente 600 e 1200 euros e em jornada completa se ganha entre 1200 e 2000 euros líquidos, dos quais 500 a 1000 vão para uma renda, 250 para a segurança-social, e de três em três meses há os impostos para pagar.
Eu sei que em Lisboa, pelas pessoas que não têm medo de dizer a verdade, se ganha em jornada completa entre 500 e 1000 euros e as rendas em Lisboa não são muito mais baixas que em Madrid. Por isso vamos la pensar um bocadinho e ver que qualquer coisa de muito errada se passa.

A verdade é que há ateliers de arquitectos jovens que abrem e não conseguem trabalho porque há um “top ten” de ateliers que fica com os projectos todos e esse "top ten" não tem gente suficiente para dar conta do recado e explora até ao tutano as pessoas que lá trabalham por uns míseros trocos. E esse grupo, a Nata da arquitectura, não se lembra de apoiar esses ateliers mais pequenos e associar-se a eles em alguns trabalhos. E a Ordem... ai a ordem, acho que nem sequer vou entrar por aí.


Isto incomoda-me porque parece que eu é que estou errada por preocupar-me, que eu é que minto ou exagero.
Isto incomoda-me porque eu gosto da minha profissão e acho que ela está a ser violada.

Porque para mim a arquitectura tem mesmo que ser para todos, porque eu não concebo construção sem arquitectura, sem planeamento, porque fazer casas para ricos é muito giro mas há montes de coisas mais giras para fazer e porque não é justa a vida que alguns arquitectos levam, mesmo alguns do "top ten" que se mostram muito bem como se a vida deles fosse espectacular mas no fundo eles são pessoas ridiculamente tristes que vivem para o trabalho porque se assim não for estão lixados.


Conclusão, a verdade é que me incomoda!
Não tenho nenhuma solução, não sei o que é que se pode fazer, mas uma coisa é certa, enquanto nao se falar da verdade não se pode fazer nada! Espero que mais pessoas se incomodem!

Há uns meses aqui em Madrid houve uma manifestação na Plaza de España para reclamar das condições precárias em que vivem os arquitectos, eu não fui mas deve ter sido de ser Portuguesa, nós não vamos para a rua reclamar, que horror, que vergonha, nós reclamamos para dentro e andamos mal dispostos que é muito melhor para resolver os problemas (estou a ser irónica) e se for preciso ainda gozamos com os que lá foram reclamar: “São uns ressabiados, cura-se com creme nivea, patêgos agora ir para a rua reclamar
!” »

escrito por Rita Burnay
»

(estava aqui, onde podem ver também os comentários... mas eu encontrei-o publicado no 5dias.net. Fica aqui, também. Não conheço a Rita Burnay, mas também me preocupo... )

.

Quinta-feira, Outubro 15

um espelho aos ombros

.

na piscina em que falta uma torre, entardecendo,
uma mulher fala sozinha, de si para si,
sibila monossilábica.

não precisa de muitas palavras - cada uma, palavra-passe,
trás de volta o que já não é,
os fiapos de sensações reavivadas.

o espelho de lantejoulas, brilhando em reinvenções,
faz-se bonito para o reflexo, porque teme sempre que ele não volte para brincar.

disse 'amor', três vezes,
(foi amor que disse)
e foi, por um momento.

.

Segunda-feira, Outubro 12

o relato

Valentim anuncia a vitória perante uma multidão apoteótica (e não berra 'Guterres'.)
Alguém disse ao Morais 'Isaltino, vais à frente'. E ia mesmo.
Alberto João ganha outra vez ... e eu, no fundo, quero acreditar que é tanta a asfixia democrática que as pessoas são até coagidas vilmente por câmaras de filmar dentro das cabines de voto - porque de outra maneira não se entende.

Rio ganha o Porto, absolutamente (pois claro) e agradece à JSD e à JP (mas eles não nascem todos velhinhos?) e diz que eles não exigiram tach... eeerr... lugares para lhe darem o seu apoio. Festeja nos Aliados, qual FCP, e diz que não sai do Porto nos próximos 4 anos. (o que significa que não é candidato à liderança do PSD? entretanto, o Pedro Passos Coelho diz que há um novo ciclo que se abre, já fala à lider e é candidato a candidato a boss do PSD. Será que Marcelo avança? Santana? Rio? Menezes? Abriu a caça, não perca os próximos episódios...)

Fátima, em Felgueiras, perde Câmara mas talvez continuará a ser suportada pelo estado, dependendo da decisão do tribunal. a menos que emigre de novo,claro (deve ser por isso que não pode ficar como vereadora para o qual foi eleita).
Narciso diz que o mal dos partidos é o aparelho (hahaha) e choraminga a perda de Matosinhos.

Elisa retira para Bruxelas e diz que se sente muito vitoriosa apesar da derrota.
Pois, para quem fica é que é mais chato...
Ana Gomes
fica como vereadora e acumula a vereação com o emprego em Bruxelas.
Santana
diz que vai pensar se fica ou não como vereador em Lisboa.
(deve depender do ping-pong da liderança social-democrata... Bolas, isto não devia ser obrigatório, quando se candidatam? Não é publicidade enganosa esta de determinados cidadãos serem bons demais para determinados cargos?)

É fora de jogo, não houve golo para ninguém.
São mais dos mesmos e Portugal continua igual ou pior.
Mas, pelo menos, ACABARAM F I N A L M E N T E AS ELEIÇÕES.

...E agora, está mesmo na altura de pormos em questão o '4-4-8' e a táctica toda - o trabalho nas autarquias, o trabalho de base, as hierarquias e as distribuições de tarefas nos núcleos, a formação e a discussão e a análise política e a forma como são tomadas as decisões e por quem.

Porque, se os portugueses reconhecem e recompensam o bom trabalho do BE na Assembleia, (embora não à escala que a direcção bloquista esperava, creio) não me parece que se sinta esse trabalho nas autarquias, nem que acreditem que o BE possa gerir câmaras municipais...
Mais
rodeo menos rodeo, o BE continua maioritário apenas em Salvaterra de Magos (com uma candidata que continua 'independente' e os partidos adoooram 'independentes'). É pouco, muito pouco, muito longe da maioria social de esquerda que queremos.

Talvez o fim deste ciclo eleitoral seja altura para mudarmos a forma como se trabalha no BE, se queremos que o Bloco não seja apenas mais um partido de 'voto de protesto' ou de 'oposição' - um partido que pensa diferente E faz diferente mostrará que é possível, numa organização política de grande escala, funcionar segundo uma visão socialista não-repressiva nem demasiado 'estruturada' ou 'aparelhada' e verdadeiramente participativa, totalmente transparente e aberta no seu funcionamento e que diminua a burocracia com imaginação para se centrar no essencial - pensar política e encontrar soluções para transformar a sociedade que temos numa outra, mais justa para todos e em que seja mais fácil ser feliz...

.

Domingo, Outubro 4

distribuição nocturna


Faltam casas e sobram panfletos,
pesados,
aos 500 em cada par de braços optimistas.
Quatro, de quatro gerações diferentes,
em febre-nocturna-de-passa-palavra - fomos fingir de carteiros.

(já agora, aproveito para manifestar a minha indignação face a esta nova moda de instalarem as caixas de correio dentro dos átrios dos prédios...)

# aviso da editora deste web log: os próximos momentos serão campanha eleitoral
(aviso mais honesto não levam, também, que é para não se queixarem de eu fazer lavagem cerebral...)#

caro eleitor :
se vota em Paranhos, vote em nós, dream-team BE para a Junta de Freguesia!
Se se quiser juntar e ajudar no que puder, antes e depois das eleições, está convidado: é num café sempre perto de casa (que afinal a freguesia é grande mas nem tanto). Funcionamos em equipa de discussão, dando back-up e ideias aos eleitos para os problemas que vão sendo tratados na Assembleia de Freguesia, as questões que devem ser levantadas e as propostas a fazer...
E, assim, a democracia não tem de acabar no fim das votações do próximo domingo - continua no dia a dia, nas decisões pequenas e grandes da parte mínima da organização do território, a aldeia, o bairro, a freguesia. Política era mais assim - mais directo, mais vizinho...

(Agora, só falta as freguesias terem responsabilidades a sério, nomeadamente na política social, na gestão dos equipamentos públicos, do património e do edificado. E orçamentos a sério, e trabalho a sério, verificado a sério pela 'vizinhança'... )

#os últimos momentos foram da exclusiva responsabilidade dos intervenientes#
... e agora retomaremos a emissão habitual:

...Lá para a beira da Quinta do Covelo, encontrámos uma 'brigada-JSD',
aos papeis, como nós,
do outro lado da rua.
Não sei se há protocolo-miopia-obrigatória-nestas-coisas,

(como naquelas alturas em que andam as comitivas de campanha de todos os partidos em Santa Catarina e bailam sincronizadas para não se encontrarem...)

mas eu, claro, fui logo lá dizer olá e trocar panfs com a tal geração de mudança ...

... Meninos e meninas com ar enfiadote,
de t-shirts de campanha e saquinhos de pano com dístico a condizer.
( saquinhos que teriam dado um jeitão aos nossos braços cansados, mas que pareciam uma farda...)
Pudera, depois daquelas legislativas...

.

Quarta-feira, Setembro 30

era uma vez uma carochinha, que achou uns euros a varrer a cozinha...



1. a livre concorrência é óptima porque baixa os preços finais para o consumidor, ou seja, o 'mercado' é autoregulável.

2. há fiscalização contra a cartelização das empresas petrolíferas e uma tal de 'autoridade da concorrência', paga por nós todos, que impede que os gajos das gasolineiras combinem os preços (por via das dúvidas... )

3. os novos equipamentos de comparação de preços nas autoestradas são muito úteis porque permitem ao consumidor (que não esteja na reserva, porque senão 74kms já me parece esticar a corda...) escolher.


4. os novos equipamentos de comparação de preços nas autoestradas já funcionam a energia solar. os carros não, porque é muito complicado.


poooois...

.

Terça-feira, Setembro 29

notas de rodapé


(montagem, ordenadinha, dos 'rodapés' do jornal nacional, na sic, enquanto a montanha paria um rato... a realidade a superar a ficção, portugal no seu melhor, etc. etc. etc. escutas? quais escutas? mas alguém falou em escutas? o manuel alegre pode ir-se preparando que isto assim são favas contadas...)

cliquem para aumentar...

.

Domingo, Setembro 27

absolutamente dispensável


Meninos e Meninas!!!! Benvindos a Portugal, a terra em que todos os partidos ganham sempre todas as eleições, o sítio onde a chuva cai para cima e onde o único partido que perde votos em percentagem e em deputados eleitos... é o que ganha as eleições!!!

Ora bem, ponto de situação, visto daqui do meu cantinho à beira da janela:

- o país é governado à direita por um partido que se diz de esquerda, afastando o seu eleitorado tradicional para a esquerda e para a direita, e usando como argumento principal de apelo ao voto o voto útil (os-outros-ainda-são-piores-que-nós!);

- o maior partido da direita moderada, arranja um candidato tão mau, tão mau, tão mau... que faz os seus próprios eleitores fugir para um partido ainda mais à direita;

- os partidos da esquerda fazem um pacto de não agressão (aleluia) mas depois, em vez de lutarem contra a direita primeiro e só depois contra os adireitados ... desatam a atacar primeiro a esquerda-neo-liberalizada, querendo ultrapassá-la, ignorando e subestimando totalmente o partido da direita mais extrema com assento parlamentar, que, num contexto de crise social tremenda (que é quando estas coisas colam bem), começa a fazer uma campanha mi-se-rá-vel, populista e demagógica, com tiques xenófobos e elitistas...

é ou não é uma situação surreal???

Hoje, apesar de termos a comemorar o fim da maioria absoluta (a tal absolutamente dispensável), o aumento do número de deputados da CDU e a duplicação de deputados do BE... não me sabe a 'vitória' - tenho um travo amargo na boca desta subida do CDS, que ganhou espaço a ponto de poder permitir, em caso de coligação com o PS, uma maioria absoluta...

P.S. - Sócrates, entretanto, pôs travões a fundo mesmo a tempo de não se despenhar: pondo ares de madalena arrependida, lucrando com as más escolhas do PSD, passando a sacrificar o que e quem fosse preciso para manter o poder, usando o truquezinho básico do 'já nos castigaram nas europeias', ou o do voto útil 'ai-ai-ai-que-aí-vem-a-direita'...
Pois, sim, senhor engenheiro, mas então diga lá, já que estava tão preocupado com a direita conservadora da Manuela Ferreira Leite - e agora, não vai piscar o olho ao Paulo Portas que lhe pode dar a maioria absoluta?

(...faço votos que esta derrota-relativa reequacione os equilíbrios internos do PS e que as esquerdas que ainda por lá andam não permitam uma coligação ou acordos entre PS e CDS... de governo ou parlamentares...)

.

Domingo, Setembro 20

apalhaçar portugal


Portugal, Setembro 2009: numa altura de crise mundial brutal, com desemprego altíssimo, baixo poder de compra, baixos salários e dificuldades muito concretas na vida das pessoas, os partidos não só cobrem o país de outdoors caríssimos...
COMO AINDA OS TROCAM A MEIO DAS CAMPANHAS...
Não que as várias versões não sejam mais do mesmo - frases-chave parecidas de uns partidos para os outros, as caras dos primeiros candidatos, força, mudança, yes we can... Dá a nítida sensação que andam a gozar connosco, (os que pagamos com os nossos impostos estas campanhas todas), não dá?

A que limites anda a chegar a nossa democracia, se as campanhas são mais imagem do/da líder do que ideias do colectivo político (que esse lider apenas representa), em que o partido dito 'socialista' governa à direita, em que os dois partidos históricamente mais votados são parecidíssimos, em postura, programa e atitude, em que nos dizem calmamente que as opções que temos quanto ao futuro primeiro ministro é entre o Sócrates (que queremos looonge do poder) e a Manuela Ferreira Leite (que ainda queremos mais loooonge do poder e-que-dá-aquela-sensação-de-regressão-temporal-ao-cavaquismo...), em que as pessoas não se revêem, nem confiam, e só esperam que ganhe o menos-pior?

À conta dessas e doutras, uma mini-micro-plataforma-movimento-revolucionário-com-várias-costelas-anarcas resolveu colar narizes de palhaço em todos os cartazes políticos das campanhas (legislativas e autárquicas) cá pela Invicta. E ensinar a fazer os narizes num blog, e convidar as outras pessoas a fazer narizes e a colá-los por aí afora. Será participação ou crime?

... Aqui há uns tempos a blogosfera andou praí toda inflamada à conta de uns mouros-betinhos-assim-a-dar-para-o-adireitado, que roubaram uma bandeirinha oficial e a substituiram por uma monárquica e ai-ai-ai-o-símbolo-de-autoridade-nacional-e-coiso. Tiveram que ir dar explicações à polícia e tudo... um 31 que só visto. Eu cá achei piada só à parte da troca de bandeira a-ver-quando-é-que-alguém-notava... mas creio que a maior parte das pessoas concordará que a real importância desse episódio reside apenas na capacidade de auto-promoção que a blogosfera tem.

(By the way, oh meninos do 31 da armada: por votação, a monarquia não volta. Capacitem-se. Terão de tentar um golpito de estado ou assim, porque ninguém no seu perfeito juízo, em 2009, crê que a capacidade de liderar um povo e de gerir um país passa 'pelo sangue' de pais para filhos. Aliás, as monarquias existentes por essa europa fora são simbólicas, apenas mais um gasto extra em representação para os contribuintes e uma prenda para a indústria paparazzi-cor-de-rosa-cuscas. Get over it. )

Agora, achar que as campanhas políticas andam uma palhaçada, pure entertainment, show para as massas e para a tv? ... lá isso penso que haverá muita gente a concordar.

... há quem cole narizes de palhaço nos cartazes, fazendo vermelha e redonda a sua indignação impotente. E os narizes são lindos, já agora, e alindam os cartazes aborrecidos e feios que tingiram portugal de lés a lés em publicidade mais ou menos enganosa.

Caros políticos: isto é participação popular, também.
Como tal, encaixem lá com tanto sentido de humor como o que demonstram face às piadinhas em prime-time dos Gato Fedorento (ahahah oh ricardo...), que só vos fica bem, e deixem lá de arrancar os narizes dos cartazes, sim?


(http://apalhacarportugal.blogspot.com/)
(o blog tem fotos dos cartazes alterados!!! só na aldeia dos gauleses. para já...)

.

Quinta-feira, Setembro 17

generation CHANGE



'SOMOS A GERAÇÃO DA MUDANÇA!!!!NASCEU UMA NOVA GERAÇÃO DE POLITICOS!!!!'...
anunciam eles. ( Este é o panfleto da JSD-Porto para estas eleições legislativas.)

Mind the gap, please... NOTE BEM:
A Manuela Ferreira Leite não está vinculada a qualquer destas propostas - ainda estes dias numa entrevista ela se destacou acerca de um posicionamento de um dirigente da 'jota' dizendo que as posições deles são independentes do PSD - uma coisa é o PSD e o seu programa, outro o da JSD...

...ou seja, quando no panfleto se lê o mui politicamente correcto
'O NOSSO PROGRAMA POLÍTICO É FEITO POR TODOS!',
vive-la-participation-populaire-e-tal-e-coisa,
pese devidamente o facto de nada do programa político da JSD ter qualquer vínculo com a realidade... De facto, a 'jota' até podia propor a nacionalização da banca e o fim dos recibos verdes. Passando das marcas terão concerteza os arremeços de juventude e irreverências e radicalismos 'filtrados' pelos 'crescidos'. Sem responsabilidades ou consequência de maior. Política a brincar, ensaio geral. Porreiro, pá.

Dito isto... Cá vai a análise possível sobre o panfleto:

ponto 2 habitação
'Acreditamos num sistema de incentivos ao arrendamento jovem que não assente na subsídio-dependência, e que utilize a tributação para estimular os proprietários a colocar (em condições mais favoráveis) os imóveis no mercado de arrendamento destinados a jovens.'

...'sem subsídio-dependência' significa que apoiam o fim do 'arrendamento jovem', suponho... ok, mas então, para quando, pergunto eu, a subida real dos salários mínimos e médios, para simplificar isto tudo? é parte da proposta?

... ah, mas espera, a Manuela Ferreira Leite não foi contra a subida do salário mínimo para uns ainda absurdos quatrocentos e picos euros? não é ela que diz que para sermos 'competitivos' temos que ter salários baixos?

... então deixem ver se percebi, o plano é: baixar os impostos aos proprietários, para eles baixarem as rendas para os jovens? a mesma coisa que a tal subsídio-dependência mas o dinheiro em vez de ir para os jovens para eles pagarem a renda, vai directamente para os senhorios, sob a forma de menos encargos fiscais com as casas? ao menos obriga a obras?

isto não cheira a esturro???
ponto 3, emprego (e educação...)
'Não é com a promoção do emprego público que se combate o desemprego. A promoção do emprego exige um ajustamento da educação à oferta do mercado de trabalho (...)'
...ou seja, 'adaptação da educação' aos postos de trabalho precários e instáveis? o plano é adaptarmos os currículos, as escolas, as universidades, etc., ao mercado de trabalho existente? em que é que isto se concretiza? fechamos já as faculdades de arquitectura e de direito porque o mercado está saturado ou esperamos para depois das eleições?

... e se tivessem pensado nisso quando, no tempo do Cavado como primeiro ministro (lembram-se da Manuela Ferreira Leite como ministra da educação, de 93 a 95? ) se fartaram de permitir a abertura indiscriminada de cursos superiores privados, bons e maus, muito para além de qualquer necessidade de arquitectos ou advogados no país, porque o negócio do ensino privado era uma mina? é esta a proposta da JSD? adaptarmos as pessoas à miséria e aos erros de planeamento educativo do próprio PSD?

'(...) e uma aposta no empreendedorismo, aliada a uma redução da tributação suportada pelas empresas relativamente aos trabalhadores.'

cada um por si e deus por todos. amén... as empresas a pagarem cada vez menos a segurança social ou os chamados 'descontos' pelos trabalhadores ... a sério que a desresponsabilização das empresas é o caminho? isto é bom para quem? para que queremos um governo, afinal? não é para gerirem a nosso favor, da tal 'maioria' à qual pedem o voto e a confiança política?

ponto 4, qualidade da democracia
'Na actividade política queremos níveis de exigência e qualidade muito elevados, e que aos políticos sejam impostas fortes regras de transparência e responsabilidade. A erradicação da corrupção (...) '
blablablabla. arquipélago da Madeira, Portugal. Alberto João Jardim. PSD.
I rest my case.

ponto 5, solidariedade inter-geracional
'As decisões políticas de hoje têm consequências sérias para as gerações futuras.
Em particular nas decisões sobre protecção ambiental, opções energéticas, investimentos públicos, endividamento público, ou sistemas de segurança social. Deve, por isso, ser obrigatório que as decisões públicas tenham como critério a prévia avaliação do seu impacto geracional.'

... o que rais-parta é uma 'avaliação de impacto geracional'??
uma coisa entre a sondagem e o referendo?
indicativo e não vinculativo, tipo programa da JSD?
ou avisam-nos que nos endividam até daqui a 50 anos mas 'é a vida' e pronto, tipo avaliação-relatório-de-500-páginas?

ponto 6 globalização do jovem português (o título é o máximo... )
'O país e os seus jovens têm de estar preparados para viver e triunfar num mundo globalizado.'
(é-a-vida-estúpido!)
'Temos que apostar na lusofonia'
(angolana, suponho, el-dorado do século XXI)
' no domínio das línguas estrangeiras e nas ferramentas digitais de comunicação'
(espera, já não ouvi isto nalgum lado? ah, pois, o PS, o inglês e os magalhães e os choques tecnológicos... pois... tão originais...)
'Temos que aprofundar os laços com os emigrantes portugueses'
(vinde a nós o vosso pilim, que ao menos estais em países que pagam salários a sério)
'e promover a atracção e a integração social de imigrantes em Portugal.'
(pooois.fica sempre bem.)

ponto 7 vida saudável e comportamentos de risco
'A promoção da qualidade de vida e bem estar são objectivos da nossa geração. Para isso temos de construir condições e formar os jovens para que se reduza a obesidade, o consumo do tabaco, o alcoolismo, as toxicodependências e os comportamentos sexuais de risco.'

...bom, se isto quisesse dizer que o PSD defendia, em concreto:
- ginásios state-of-the-art e pavilhões gimnodesportivos e piscinas, saunas e 'spas' públicos, à borla, com diminuição de horário para quem quiser ir tratar do corpo, todos os dias, (para baixar stress, aumentar produtividade e felicidade geral, e poupar em hospitais e em antidepressivos e bandas gástricas e remédios contra a pressão alta...)
-corredores de bicicleta para as pessoas poderem utilizar as biclas como meio de transporte em segurança nas cidades,
-comparticipação total dos medicamentos para ajudar a deixar de fumar,
-separação de consumos entre 'leves e duras' e a legalização da 'maria',
-salas de chuto e distribuição de droga 'limpa e segura' aos adictos,
-comparticipação total de preservativos e educação sexual em massa...

... então eu estaria perfeitamente de acordo!!! o problema é que eles não especificam nada, que é como quem diz, mandam umas lapalissadas generalistas que não entrem em polémicas, e pronto...

(...)

( vocês ainda estão a ler isto??? se chegaram aqui, mandem se faz favor um comment só com o nome da vossa sobremesa preferida, tipo código, para eu saber quem é que de facto leu isto tudo!!!)

ponto 10 triângulo institucional: estado, mercado e sector solidário (uuuiiii...)
'Apostamos num modelo alternativo, assente na cooperação do Estado e o sector social solidário, por um lado, e em que a existência e funcionamento do mercado seja temperado pela regulação do Estado e na superação das falhas do mercado.'

... ou eles são muuuito inocentes (e não discutem com os camaradas mais velhos, fechados na sua 'jotinha', crescendo devagar...) ... e nesse caso eu só posso retorquir 'pois, e depois chega o coelhinho da páscoa com o pai natal e muitas prendinhas e vivem todos muito felizes para sempre!'

...ou então não lêem jornais - tipo, pessoal, o Estado não tem propriamente conseguido 'regular o mercado'...

... ou então são cínicos totais - o Estado é que faz a superação das falhas do mercado? pooois: ou seja, se der lucro, porreiro, o mercado encarrega-se de o armazenar onde bem interessa (nas contas da beautiful people!!!!) se correr mal, entra o dinheiro dos meus impostos a cobrir o buraco (BPN, BPP, etc etc). ceeerto.

CONCLUSÕES: Mais do mesmo. Business as usual. Mudança? Nova geração? Ideias? Alternativa? Onde? ...


Post Scriptum 1
... Eu defendo o fim das 'jotas', com ou sem esse nome - quando se afastam do 'mundo dos adultos' em associações políticas à parte, os mais jovens perdem peso nas decisões e deixam que lhes passem um atestado de incompetência e imaturidade, não reivindicando o seu lugar nas decisões e nos programas dos partidos sobre a gestão do mundo e da sociedade de que são parte integrante. ... Além disso, as 'jotas' são meio caminho andado para a duplicação do terrível aparelho inerente aos partidos políticos as we know them, autênticos balões de ensaio/rampas de lançamento dos delfinzinhos para o partido a sério.
Afinal, alguém me consegue dar uma boa razão para pessoas de vinte e tal anos não estarem a discutir-aprender-colaborar com mais velhos? São assuntos diferentes? Os meninos não se sentem à vontade para participar? Os senhores não têm paciência, vocação ou vontade de passar o testemunho? Estamos a tentar prolongar/empatar a 'juventude' até quando??
Jovens de 30 anos? Are you kidding?

Post Scriptum 2
alguém tem o número da Joana Amaral Dias, para eu lhe pedir umas dicas, caso me liguem do PS, a fazerem convites indecentes, depois deste post?

.

Domingo, Setembro 6

do caminho a teu lado

num dos últimos dias do mês de agosto um homem fez a viagem contrária, a-que-ninguém-faz: da capital para a paisagem.

a viagem 'contra a corrente' é uma pequena parte da resistência - ao envelhecimento, ao êxodo e à centralização de gente e capacidades e meios e artes e decisões num-sítio-só.

um acto político, por amor.
ao mundo, sobretudo...

de ti
por ti
em ti
para ti
contigo

o porto está mais bonito.

.

Quinta-feira, Agosto 27

Seun Kuti live in Lisbon


ritual
repetitiva
circular
concêntrica
excêntrica
excitante
hipnótica
orgânica
imprevisível
improvisada
improvável
imparável
imperdível

essencial

música-magia
Afrobeat

Oluseun Anikulapo Kuti - filho mais novo do Fela, com os Egypt 80. Sabado, no CCB. O concerto do ano, concerteza. apaixonem-se aqui, (ou aqui ... )

.

Domingo, Agosto 23

zoom in

Fui finalmente experimentar o mais recente ponto do roteiro GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) do porto, o ZOOM. Impressões gerais:

1 - À entrada, um betinho loiro de fatinho chunga e sapato bicudo, esquisito.

2 - Lá dentro, música house (chatiiice) mas-menos-mau-que-o-pior-do-costume nos outros pontos do LGBT-GLS portuense (voto útil, portanto, mas a mim chateia-me o nninguém querer saber da música...)

3 - A decoração é gira, gostei do espaço - lusitano-meets-industria, or so.

4 - 'Les' 1 - Simpatizantes 3 ... dentro dos 20% de mulheres na sala.

5 - Pedi lumes a uma miúda gira (para isso é que elas servem) e a namorada VOOU para o pescoço dela e lançou-me um olhar a-ssa-ssi-no. ui. que medo.

6 - Fui pedir lumes a-um-homem, para evitar mal-entendidos =) ... o primeiro gajo a quem me dirigi (no clássico outfit t-shirt-preta-justa-sobre-peito-musculado-cabelo-curto-onda-militar-jeans-justas-e-sapatilhas-pi-pi) ficou à conversa comigo e, talvez, por eu ter um ar muito straight (whatever that means...) disse-me logo que 'não era gay'. Não que eu tivesse perguntado, obviamente ... Retorqui, com um sorriso, que não acreditava nada em 'gavetas' dessas... e ele adorou, claro - mas não é terrível que mesmo num bar do 'circuito gay' um tipo se sinta constrangido com a sua orientação sexual???

7 - ... incompreensivelmente, continua a insistir-se nos mocinhos musculados, depilados e oleados a abanar os corpinhos semi-vestidos-à-lá-YMCA-tipo-fetishe-pronto-a-comer-no-balcão - é fácil, é feio, é constrangedor, é vulgar, é agressivo, é uma utilização dos moços como se eles fossem carne de talho (mesmo que eles não tenham noção)...
PORQUÊ, pergunto eu???

8 - Além de todo o restante conservadorismo reinante (a música, as relações possessivas i-guai-zi-nhas-às-outras, o pedir lumes visto como código de engate, os mister-músculos a dançar no balcão ETC.) ... ainda há a onda do 'uniforme' como correspondente a uma dada orientação sexual, tipo palavra-passe silenciosa. Para as meninas, o código é t-shirt de alças brancas, calças de ganga e pulseiras e/ou cintos de couro preto (e um ar violento, se bem que não masculino, em geral)... ou o 'look-Shane', olho-pintado-de-preto-melena-sobre-os-olhos-camisa-branca-e-ar-perturbado-papa-tudo... Falta imaginação e liberdade por dentro e por fora...

9 - Eu devo realmente ter um aspecto estranho. Acabo por ser, absurdamente, demasiado 'les' para os 'heteros' e demasiado 'straight' para os 'LGBT' - minto, os transsexuais e as drags gostam sempre muito do meu ar muito fêmea e tratam-me lindamente. =) Mas as lésbicas estranham e saem-se sempre com a deselegante pergunta do costume 'em que clube é que tu jogas?'...

9.1 - Minha gente, que se lixem as 'compartimentações de gente'! Parem lá de gastar largura de banda mental com isso!! Não há 'papeis sexuais' definidos, nem oposição entre homens e mulheres - 'gay' e 'hetero' são convenções limitadoras de que não precisamos! - we are all so very queer...

10 -Ai as saudades que eu tenho do triplex e das 'gi-gi' no início da década e da misturada toda, sem rótulos, sem perguntas, sem gavetas, só adrenalina aos copos, gargalhadas e carnaval... Parecia que ia tudo desaparecer - os códigos, as regras e os rótulos. Tão perto e tão longe...

11 - A revolução (sexual, mental, estética, artística, política...) será na rua , não dentro de um bar... a club is a club is a club. =P

.

Sábado, Agosto 22

pelo menos poder


Para ser um poder precário,
passador de proto-poderes,
parcos em proteínas,
por partidos partidos a picareta,
povoados a máquinas de escrever aos pedacinhos - antes não pudesse.

Poder, podia, mas seria um poder parecido, parente,
uma outra parte de um mesmo problema,
um poder pisco,
e parco, e pobre,
poder por poder,
pessimista,

na palmilha do paranóico
pronto-a-poder-de-pacotilha
que podemos ultrapassar .

Podíamos poder um dia
pulverizar em púrpura o poder por sobre as pessoas,
para elas pensarem por si próprias
e poderem todas mais um pouquinho,
num poder às postas,
um poder popular platónico.

Pelo menos,
poder uma plataforma - num momento,
um movimento re-partido em movimento por um mundo melhor.


.

Sexta-feira, Agosto 14

guerra pelas estrelas



fomos foragidos da cidade,
a-ver-o-mar,
olhar estrelas,
armados de melão e vinho de tostão.

inútil:
as cidades ganharam a noite em dia
e poluíram de luz o céu por toda a costa,
até não ser possível contar ursas nem cassiopeias.

por estes dias chovem perseidas,
estrelas cadentes que não vejo da janela do meu quarto,
porque o mundo dos homens
tem medo da noite,
é narciso e carente e quer-se espelhado no céu,
permanentemente,
na sua luz eléctrica de iodetos, filamentos e fluorescências.

(...e se nunca se apagam as luzes para que possam,
homens e bichos,
ver o céu,
pelo menos de vez em quando,

talvez seja para eles não pedirem desejos às estrelas que caem...
)

... assim, por tudo isto,
por precisar de um céu maior para respirar fundo,
para desejar tudo e mais um bocadinho, e mais alto e mais longe,
é que,
se alguém quiser saber de mim este fim de semana,
terá que me procurar, numa tenda sob um céu estrelado,
algures no silêncio da serra da peneda...

.

Terça-feira, Agosto 11

cor-de-crime



miss rainbow em meio ácido
no meio defeso de agosto,
morno, alcalino, sem novas.

mulher que imitas o pior de um homem
ganhas talvez o mundo
enquanto me perdes aos poucos.


durante, enquanto, não mais.
a lealdade de uma noite só
não é negociável
entre-amigos-entre-amores.


sê-lo-ão porventura as restantes,
uma por uma e outra e a próxima vez,
que o ritmo do mundo não deixa nunca de marcar o corpo.

sem alguidar, nem faca.
só menos um a rezar história.

.

Quinta-feira, Agosto 6

fly me to the moon


a vertigem entre a ciência, a arte e a religião
pode bem ser
a verdade que passa a ser
só porque toda a Terra crê:

um homem calcou um dia
o mar da tranquilidade
.

mesmo que fora ilusão comunitária,
inverdade,
poema levado demasiado a sério,
delírio colectivo ou salto de fé.

mesmo assim, cremos,
e o crer fez história e faz verdade.

a primeira palavra foi lua,
ao colo de meu pai,
que ma mostrava, cheia,
como agora, há muitas luas atrás.

num beber de luz azul
sinto a magia daquele olhar celeste,
a marcar o tempo e a mudar o mar -
queima na minha mão a falta da tua,
pagão das luas plenas.

penso:
as próximas luas cheias serão todas nossas
para lhes perdermos a conta.

.

Quarta-feira, Agosto 5

pop-TV-drama


a TV pequenina, da cozinha, pifou.

(já parece o meu pc velhinho e 'gripado' que já só suscita a pena do super-computer-wizz-chico... 'já há uns tempos que ele quer morrer e tu não deixas!!!' ... diz ele, à falta de melhor explicação para quando eu o formato ele não apagar as partições do disco e já ter virus lá dentro, logo depois da formatação... isto claro, tudo porque tive de tirar o ubuntu (autocad-slave) e regressar ao mefistofélico winXP... - se alguém souber resolver o problema, que explique, obrigadinha...)

...então lá foram eles procurar uma à rádio popular...

(já que hoje em dia mandar arranjar um electrodoméstico com 10 anos não passa pela cabeça de ninguém, é mais caro e tal - o que devia ser impossível, se pensarem no trabalho que dá construir uma coisa daquelas, de raiz, comparativamente ao trocar uma ou outra peça que se tenha estragado lá dentro... a sorte é que há pessoas que trabalham muito baratinho em sítios muito longe então não há problema nenhum: é só o plástico e o vidro e o metal e as cenas tóxicas que se deitam fora e que (na melhor das hipoteses) dão um trabalhão a reciclar)

...duas horas depois, após uma aprendizagem forçada sobre todas as opções disponíveis...

se-bem-que-quase-todas-com-aquela-onda-preto-brilhante-que-só-fica-bem-naquelas-casas-em-que-o-mundo-não-fica-bem, assim-à-arquitecto-bem-comportado-e-minimalista,

lá escolheram uma. todos contentes, levaram-na para a caixa e começaram a passar o cheque... sem saber que afinal não se podia pagar com cheque (coisa que não estava escrita em lado nenhum, assim visível pelos olhos adentro, pelo menos), e o cheque até já estava meio preenchido e tudo, mas nem-pensar-agora-por-cheque-só-até-150-euros (que é o máximo que o banco devolve se o mesmo estiver careca...)

conclusões:
1) ninguém comprou TV nenhuma, irritados com o tratamento de 'ladrão até prova em contrário'
2) devem andar a ser passados muitos, muitos, muitos cheques sem cobertura
3) a assinatura, o nome escrito pelo próprio punho e, por extensão, a famosa 'palavra de honra', estão em descrença e em desuso
4) o débito está a ser desincentivado em prol do crédito (constatação óbvia, gente a impingir cartões de crédito é aos molhos, de todo o lado e a todo o instante...) ou isso ou então é o incentivo ao pessoal andar com sacos de notas...

.

Segunda-feira, Agosto 3

Caro amigo Rui Namorado,

para mim, assim de fora e com a visão parcial que obviamente tenho, o problema do PS parece ser o ter deixado a linha entre a defesa do socialismo e a proposta de uma sociedade social democrata instalar-se 'a meio' do partido... O que torna dificil dizer que é um partido 'à esquerda', embora tu ainda o vejas como tal.

O centro tem a vantagem de recolher mais votos 'moderados' e não politizados, daqueles que acham que ao meio é que está a virtude, os descrentes nas gerências e nos políticos - torna fácil ganhar eleições. Mas é instável e torna dificil a defesa do mundo diferente de que precisamos.

Não me engano a diagnosticar 'o mal de direita' - seria, creio, uma catástrofe um governo com Ferreira Leite a dirigir o país. Porque ela acha que os ricos são perseguidos (e se fossem eles eram pobres, não era?). Porque ela acha que um salário mínimo de 450 euros é um exagero. Porque eles acham que sempre haverá quem precise de muito e quem precise de menos, muito menos, para viver.

(... faz lembrar aquela piadinha do Quino com a Susaninha a dizer que quando fosse grande queria ir a muitos banquetes de caridade para angariar dinheiro para comprar farinha e essas coisas que os pobrezinhos comem...)

A direita quererá sempre gastar o menos possível com as pessoas, com o Estado, porque o mundo deles será sempre só para os mais fortes e para os mais competitivos faster, better, higher, more. Porque não percebem nada de economia, porque entregaram o mundo à finança e ao dog eat dog. Porque nunca saberão ser felizes.

Rui, hoje vi o presidente da república a queixar-se de ter muito trabalho para fazer nas suas férias. E penso nos milhões de precários e de pessoas que dependem dos salários dos precários que não têm direito a férias. A minha geração não tem direito a férias pagas e o salário médio português é de setecentos e qualquer coisa euros. ...E então penso que não tenho pena nenhuma do presidente da república (que continua a defender o neo liberalismo apesar de ter vindo dizer que perdeu boa parte das suas poupanças na especulação bolsista e nas crises da finança mundial, o que para mim tem uma piada descomunal, visto que o homem é economista, mas nem isso o faz pensar, ter dúvidas ou achar que se pode ter enganado...)

A economia das trocas de bens degenerou na economia de trocas de dinheiro, toda a gente está pior de vida - e a direcção do PS quer por 200euros nos bancos por cada bébé novo, possivelmente para pagar uma parte das propinas do cachopo daqui a muitos anos, que isto da educação gratuita e universal já é miragem constitucional e toda a gente acha natural...

Rui, quantos deputados de esquerda serão eleitos pelo PS, gajos e gajas que estejam dispostos e determinados a acabar com a exploração laboral dos salários de miséria, das horas e anos a mais de trabalho dos regular joe's, que estejam dispostos a apostar numa tentativa de desenvolvimento para a auto-suficiência mínima do país, que não sejam egos inflamados ou tachistas militantes, que queiram de facto trabalhar para que os outros que representam vivam melhor, tenham mais saúde e qualidade de vida, sem propor apenas obras de betão para ganhar eleições? Quantos das listas têm uma noção clara da sua responsabilidade perante as pessoas que vivem tão pior, hoje, em que temos um país cada vez mais desigual e mais pobre?

Não quero eleger nenhuma esquerda como inimigo - antes um adversário respeitável, que é como sempre vi o PCP, por exemplo. Mas eu acho que as democracias devem funcionar em maiorias relativas - e o PS tem de perceber que ou vira à esquerda, ou defende as pessoas e não as empresas de trabalho temporário, ou não vai durar muito mais tempo - não vai ter a confiança política popular para ser poder muito mais tempo.

O equilíbrio hesitante de um país periférico sul-europeu no fio da navalha entre o neo-liberalismo e um estado-providência é uma fórmula que não está a funcionar. E portanto, as pessoas ou encarreirarão nos contos da carochinha da direita, extrema ou moderada, subjugando mais e sempre a sua qualidade de vida e o seu direito à felicidade já à finança e à ganância de alguns, ou se absterão (de acreditar na política) ... ou passarão mesmo a votar mais à esquerda, fazendo mirrar o PS.

Não vou dizer que acho que o Bloco é um partido perfeito - pouca democracia interna existe, as listas e as decisões políticas são feitas equacionando ainda os desiquilibrados equilíbrios internos relativos ainda aos antigos partidos da equação original (e a balança não pende para o lado mais interessante, neste momento), não há formação política (fora dos ex-partidos-tornados-associação) e debate interno bloquista, muito pouco. Pelo menos no Porto... Tornamo-nos partido, e ainda mal.

Tenho noção do perigo: ou esses partassociações se dissolvem, ou se começa a discutir realmente, ou há escola, formação de quadros para pensarem pela sua cabeça e inventarem regras diferentes de ser partido, ou então o Bloco estará a chegar ao seu máximo e nunca será uma alternativa ao poder que há, não será diferente.

Não sei se correrá tudo bem - se não correr e a balança se desiquilibrar mesmo, teremos de recomeçar tudo outra vez - mas ainda há a hipótese e a matriz para ser melhor, para ser uma proposta coerente para chegarmos realmente a uma sociedade mais justa.

Sou tão maioria dentro do meu partido como tu no teu. =) A diferença entre os nossos partidos é que o meu é de esquerda, socialista, o teu já não. Percebo que a luta interna no PS é importante, e de como era importante que o PS virasse à esquerda. Mas será que essa luta pode ser ganha? Poderão pessoas como tu e os teus gerir a linha política do teu partido? Ou será que a viragem à direita, por mais que te custe, já não tem volta?

um beijinho, grata sempre pelos duelos formativos que são escola, que são escola...
(bate com jeitinho, pá, que eu sou pequenina e uso óculos!!!)

.

Quinta-feira, Julho 30

"O fascismo é uma minhoca que se infiltra na maçã. Ou vem com botas cardadas ou com pézinhos de lã"

...kill them with kindness - espero sinceramente que o CDS-PP seja vaporizado nas eleições que se seguem. que não elejam nem um único deputado nem um único vereador em lado nenhum. e que tenham de pagar esta poluição visual demagógica, populista e proto-fascista do próprio bolso (e não com os meus impostos).

o voto é seu.

.

Segunda-feira, Julho 27

passé récent, présent continu, futur proche

um dia ela entrou entrou no café e ele ficou pasmado,
suspenso nela e no passado que lhe voltava aos olhos e à boca,
todo, num instante.

elas olharam e viram, nos olhos dele,
o que tinha sido
e já não era,
ali tão perto, outra vez.

esta é a história em que eu já entrei pela porta
e em que eu já estive sentada numa e na outra cadeira,
a ver alguém entrar.

mesmo que a porta não fosse porta
nem o café um café
nem as cadeiras aquelas.
a história é sempre, ou quase.

(o presente, sentado, ao ver o passado entrar, levanta-se, cumprimenta, ao passar, e sai, deixando-os, sós, a recuperarem pedaços dum mundo que foi um dia. )

se voltasse a ser,
não era,
nunca fora.

está sol, lá fora.

.

Sábado, Julho 25

quanto vale um casamento?



Não chegaremos à indiferença que eu gostaria entre LGBT (lesbi-gay-bi-transgender) ou não-LGBT, com a aprovação do casamento gay.
Eu quero muito que o mundo futuro não pergunte a ninguém se gosta mais do papá ou da mamã e não enfie as pessoas em gavetas castradoras e determinantes de um way-of-life - quero que isso não tenha importância nenhuma, num mind your own business global e não mais o 'toda a gente quer saber com quem você se deita' que canta o Caetano. Mas, neste ponto, a luta da esquerda só podia ser, para mim, um 'acabemos com o casamento civil'.

Acredito em igualdade no tratamento entre o estado e os cidadãos - adopção e todos os outros direitos, iguais para toda a gente. Acredito que o estado deve dar o exemplo no combate sem tréguas à homofobia e a todos os tipos de discriminação. Defendo que o estado deve aceitar famílias de todo o tipo - porque não tem de privilegiar nem desfavorecer uns ou outros. Tem, sim, de proteger os elos mais frágeis, sejam eles crianças ou adultos caídos em desemprego, em doença de pobreza ou em relações de exploração de qualquer tipo. O estado, parece-me, não deveria fazer juízos de valor - deveria lidar com pessoas individuais ou com grupos de pessoas em associação, de qualquer tipo, pais, filhos, enteados, companheiros, primos, amigos, ... ?

Mas... exigir o casamento? Esse contrato copiadinho do sacramento cristão, conservador, um-para-um-menina-para-menino-until-death-does-you-part-alguém-se-opõe-a-que-se-realize-esta-cerimónia-happy-end-de-hollywood, justificação de machismos e desigualdades ancestrais? Pedir a extensão disso tudo e do terrível e desajustado peso cultural a outros modos de viver o amor? Não será isto uma exigência recuada para uma esquerda exigente? Porque não deixar o casamento para os crentes de cada religião (que há muitas e com regras diferentes), segundo as próprias regras, e separar finalmente o estado da religião?

O Miguel Vale de Almeida, que já foi bloquista e se foi afastando, por muitas e compreensiveis razões, que já afastaram muitas pessoas minhas amigas do movimento, aceitou entrar, em sétimo lugar, na lista PS às legislativas por Lisboa.

... O que significa que 'vai atrás' do Vitalino Canas (manda-chuva PS, provedor das empresas de trabalho temporário e padrinho do precariado em geral). É o que dá separar as coisas - Miguel Vale de Almeida pede às pessoas que, para votarem nele (e a julgar pelos comentários de parabéns no seu blog, 'os tempos que correm', muita da população gay e lésbica quer muito ter o primeiro deputado assumidamente gay na assembleia), elejam, primeiro, antes, um dos homens que mais tem contribuído para a exploração laboral em Portugal.

É o que dá NÃO misturar tudo, o amor, a música, o trabalho e a política em geral, e dividir tudo em gavetinhas - uma causa sobrepor-se-à às outras e, para o cumprimento de uma pequena parte da mudança, sacrificaremos todas as outras - assumiremos que há coisas que não mudarão e portanto mais-vale-um-pássaro-na-mão, envelheceremos.

Alguma esquerda poderá até morar pela nova esquerda ou pela esquerda socialista - mas nunca, nunca, nunca, atrás da carruagem José Sócrates-Vitalino Canas.

'de facto era um projecto verdadeiramente extraordinário querer construir o meu paraíso com uma quadrilha de ladrões.' Hypérion, Friedrich Hölderlin

.

Terça-feira, Julho 14

cat-less


Há mil novos (des)amores do mundo e outras tantas novas trovas nos romances políticos do telejornal - mas nos meus olhos escuros, em pausa, só cabe o desconforto resignado, digno e silencioso dela. O meu polegar-gato é maior que a Torre dos Clérigos porque está muito mais perto dos meus olhos...

Ela ficou lá, a soro, na jaula que eu desenhei e vi fazer. Levantou-se quando eu cheguei, como quem diz - «leva-me para casa. já.» Toda tremeliques mas cheia de vontade. Ainda temos gato. Teve de ficar, até amanhã, doente. E eu fiquei cat-less. Não desenhei essa jaula para ti - disse-lhe eu, entre carícias calmantes - não, sequer lembrei que pudesses ter de a usar... Mas gosto de ver que não pareças, apesar de tudo, ter medo de estar aqui...

É tricolor e nunca me pareceu envelhecer - nem uma ruguinha denuncia os 16 anos em idade de gente e muito mais em tempo-felino - quando muito, ficou mais chata: quero comer, quero que venhas aqui para a minha beira fazer-me festas, quero que me abram esta porta, não quero comer isso, porque é que estás a trabalhar em vez de olhares para mim. E assim... Ranzinza.

A gata.
Dois anos de luta e duras negociações : espalhei cartazes pela casa toda (que não foi à toa que me embalaram ao som da Internacional). Para todo o lado que se viravam, as entidades parentais (o inimigo, os manda-chuva!!!) deparavam com cartazes com a exigência da resistência: quero um gato.

Venci-os pelo cansaço. E lá veio, a gata.
Quando chegou, cabia no capacete de mota do vizinho de cima, que ma deu. Foi sempre tratada como uma princesa-gata, a mascote sem competição, com direito a personalidade própria e pancas e manias e ambiguidades. Os gatos negoceiam regras e cumprem-nas e lutam pelo que acham ser os seus direitos. Os cães não sei, os gatos sim.

Nós, donos a terços, cohabitantes e amigos, fãs incondicionais e apaparicadores de primeira categoria, prometemos agora uns aos outros que não prolongaremos em tratamentos o sofrimento, caso persista... Um respeito à dignidade anciã dela, humano e amoroso - esse respeito adiado ainda nas leis dos humanos, o respeito com o qual não brindamos os pares que amamos e que não podemos ter por nós próprios, à conta de um certo afastamento entre a moral e os corpos dos bichos e dos homens... e de um grande desconforto civilizacional com as origens e o fim da Vida.

... Não parece ter medo de morrer. Eu cá, que tenho medo, acho que ela crê piamente que há de ir desta para melhor: para um sítio em que o tempo não pese tanto no corpo cansado, em que não existam aspiradores nem sacos de plástico e em que o sol do fim da tarde nunca acabe - algures onde haja sempre um prato cheiroso de cogumelos crus fresquinhos, broa de avintes, atum em lata, carne crua e camarões cozidos...

Nunca pior.

(Um beijo e uma festa debaixo do queixo, onde o pêlo é branquinho e mais macio.
Pode ser que te safes, que ainda tenhas mais uma das sete para gastar, que fiques melhor e que te tenhamos para aí a resmungar mais uns tempos - até um dia morreres assim, num suspiro, pacificamente, enroscada ao sol, à janela...

bonne nuit, chère chaton rouge...)

.

Domingo, Julho 12

how to not grow old


O mundo envelhece: basta deixar entrar as crises para dentro da pele, não conseguir compartimentar as coisas, deixar de conseguir desligar o botão. Basta desacreditar que ser feliz é aos bocadinhos, das coisas pequeninas que não se compram e dos abraços dos amigos. Basta submergir, basta deixar de acreditar que se pode sempre recomeçar. Basta deixar de levar o mundo a brincar.

Não envelhecer é difícil. Será, talvez, a grande aventura, na política e ecologias pessoais e colectivas. A cena é não deixar entrar. Não deixar a crise e a cultura do medo e o resmoer baixinho contra o despertador entrarem. Não deixar o peso do mundo roubar-nos o verão - e conseguir fingir a eternidade e a liberdade totais na distância entre o fim do dia e o começo do seguinte. Não aceitar as regras do jogo, nem os 'votos úteis' nem o menos mau. Não perder a fé nas ideias e procurar coisas novas e novos amores, sempre. E mandar o mundo à merda quando tem que ser, de nariz no ar...

(Gosto de vocês young and careless - e preocupo-me com os meus soldados, companheiros de lutas e de copos e de trabalhos e de futuros, que definham e deprimem e perdem o brilho nos olhos ao peso dos dias cheios, under pressure. Resistir ao mundo e ao tempo que passa, rápido e tenso, é preciso.

they can take our time but not our minds -
desliga a televisão e anda dançar.)

.

Sexta-feira, Julho 10

farta, farta, fartinha de cartazes


(ainda ninguém se tinha lembrado desta? =)
fotomontagem miss red

Segunda-feira, Julho 6

helter skelter in limbo-land


Ele vive no meio de duas freguesias - naquela rua em que de um lado é uma, de outro outra.

Nas últimas eleições autarquicas, a decisão foi simples: votou no único partido que pôs a 'publicidade eleitoral' relativa à freguesia correcta na sua caixa de correio - porque faz sentido que quem queira responsabilidades políticas a gerir uma zona tão pequenina lhe conheça os cantos...

(... Fomos sangria e jantar e à porta do cemitério, pôr os desvairios em água corrente. Bastamo-nos um ao outro num-a-um, de vez em quando. Ele há muitos tipos de amor.)

.

Sábado, Julho 4

MNMMCM (movimento não mudamos o mundo com manifestos)




Esta crise anda a pôr toda a gente maluca. Agora já há manifestos de todos os tipos, de todos os lados, direitas e esquerdas: agora há um manifesto dos 30, de um grupo de V.I.E. ...

(very important economistas/empresários, gente muito bem pensante que tem gerido o país e as empresas aos saltinhos omniscientes entre cargos,nos últimos anos com belíssimos resultados aos níveis da própria economia e dos investimentos públicos e da gestão da produção humana e do patrimónios públicos dos povos e sobretudo do nível de vida das pessoas!)

... a dizer que importante, sim senhor, é fazer investimentos públicos (leia-se obras públicas que este pessoal não sabe o que é investir em mais nada como se não houvesse outra forma de criar emprego...) e que se não o país pára.

...Cá para mim, é a mesma gerinha que dizia que o mundo parava se não tivessemos nacionalizado bancos e metido não sei quantos milhões noutros. É pá, já vi vários economistas a dizer que se calhar não - afinal isto é tudo menos uma ciência exacta.

(assim como assim são só numerozinhos a passar em ecrãs e a inventar coisas loucas como dívidas enormescas dos países subdesenvolvidos - que andam há milénios a fornecer todas as matérias primas e o trabalho-escravo dos países ricos - aos países desenvolvidos ... que mal faria pormos tudo a zero para toda a gente e combinarmos mais ou menos o que temos de produzir e trocar as coisas e vivermos todos em paz felizes para sempre?)

...Entretanto, o país já deve mais do que o que produz num anomeninos, vamos deixar de brincar às autoestradas, começar rapidamente a investir nas pessoas, a educar bem as nossas crianças, pagar melhor aos adultos e dar-lhes tempo para eles poderem ser e pensar e aprender e desanuviar e imaginar, exigir fair trade, baixar os consumos desenfreados e incentivar a produção de bens essenciais, bem produzidos, aproveitando para acabar com os problemas ambientais que temos? e transformar a justiça social num motor de 'progresso', como vocês dizem?

Vocês todos, centrões, têm todos uma grave (gravíssima) crise de imaginação. E nem percebo porque discutem tanto: o PSD propôs o TGV. O Cavaco cobriu o país de autoestradas que andam sempre vazias. (dou razão ao Miguel Sousa Tavares e à Maité Proença, que sempre inspiraram os portugueses) O Sócrates quer fazer mais auto-estradas e mais elefantes brancos. É tudo igual, é a mesma fórmula. Não percebem a palavra investimento como algo que não seja alcatrão e tijolos.
It's infuriating.
E ainda pior é perdermo-nos em discussões parvas o-meu-manifesto-é-melhor-que-o-teu...

.

Sexta-feira, Julho 3

... o Manuel Pinho (economista, ex-ministro da mesma pasta, PS) também esteve na tal conferência de certezinha... a tal do sr. marketeiro da campanha do sr. Obama ... embora se calhar tenha saído mais cedo... =)

Na última entrevista que vi com ele, dia 2, ainda ministro, era um homem optimista* e em pré campanha:

Ele fala português, não politiquês!
Ele tem gráficos!
Ele rasga literalmente uma folha de papel onde estão descritos os inúmeros incentivos às PME's, as tais que o PSD gostaria de rasgar se ganhasse as eleições!
(as letras sáo pequeninas, não dá para ler).

Ele diz que só vale a pena governar com espaço para fazer reformas!
(respondendo a uma pergunta sobre maioria absoluta, sim ou sopas).
Ele cita o cherne, esse grande português!

* (optimista sempre foi, que chegou a dar a crise por terminada mais ou menos no início do começo, e isso para mim era motivo mais que suficiente para demitir um ministro da economia - por levar as pessoas ao pânico quando percebem que nem o próprio ministro da economia está a ver bem o que se passa...)

Vamos sentir falta dele.
Hang Loose, Manel!

.


Quinta-feira, Julho 2

one tough cookie


Entrevista Pedro Santana Lopes 1 julho 2009 (baralhei as ideias da ordem em que ele as disse, senão não tinha piada, mas foi tudo na mesma entrevista, entre muito mais...)

... Pedro Santana Lopes (PSL) vai concorrer à Câmara de Lisboa -diz que é lisboeta e conta com ar saudoso onde morava quando era novo (demonstrando amplamente conhecer amplamente a cidade)
... PSL gosta do que faz, espera ganhar, é modesto e humilde. (Diz ele.)
... PSL sabe que os outros, os das esquerdas, sabem que têm que ter medo porque há uma razão para ele ganhar as eleições... (não percebi qual era...)
... PSL volta à berlinda com o Arquitecto Frank O' Gehry (a griffe! a arquitectura-espectáculo!) mais um túnel e outras ideias recauchutadas (oh tempo volta para trás)
... PSL diz que a actual Câmara não apita em nada nas obras da frente ribeirinha e que só concorda com o governo, que é, no fim de contas, quem 'manda'. Comentário: 'nunca admitiria! (…) ainda mais, no terreno sagrado de Lisboa!!'
... PSL arrepende-se da atitude e do 'estilo' da sua vida privada e de mostrar a sua vida privada (suponho que ele queira dizer na CARAS e nessas cenas, eu por mim o homem gostar de festas e de mulheres acho óptimo... mas se ele está arrependido tudo bem, who gives a damn?)
... PSL não se queixa da dívida pública, mas diz que a Câmara tem má reputação e por isso é que é difícil arranjar mais um empréstimo, (mas que se pode tentar...)
... PSL acha que à mulher de César não basta ser séria, há que parecê-lo!!! (oh, those old family values...) e pouco depois, já noutro contexto : 'devemos saber resistir às tentações'!

... PSL sabe que passado é passado e que que e tem um caminho, se Deus quiser, tem um rumo para Lisboa.

...

Nota-se ou não se nota que esteve cá o gajo responsável da campanha do Obama a dar uma conferência por estes dias?
=) Alguém deve ter gravado e passado uma cópia a PSL

(mudar de táctica sim, mas nunca de imagem...
chegar às pessoas que não acreditam na política, mostrar-se um cidadão comum, empatizar com elas ...
dar-lhes esperança...
o messias...
o bem comportado...
o boy-next-door...


pá, o marketing político chateia-me solenemente.
)

(E já agora, porque é que o PSL e o PP desaparecem ciclicamente e depois voltam, quais fénix-renascidas-fresquinhas-que-nem-alfaces?)

.

Terça-feira, Junho 30

quem quer uma Câmara de bandeja?


É pró que está. Rui Rio (presidente da Câmara do Porto, economista, PSD) está milhas à frente nas sondagens da candidata em segundo lugar, Elisa Ferreira, do PS, para as eleições autarquicas que aí vêm ... O pessoal deve ter achado que, bem, já que ela já tem um emprego tão bem pago no parlamento europeu e até lá fica a menos que seja para ser presidenta, que isso de vereadora não soa tão bem, então não vamos incomodar a senhora...

Pá, a única explicação que eu encontro para o PS repetir o erro-Fernando-Gomes-olha-correu-mal-em-Lisboa-não-faz-mal-o-Porto-adora-me é o não quererem ganhar as eleições.
Ponto.

Oh amigos, vocês que deram a vitória ao Rui Rio (que podia ter feito com um certo realismo um daqueles discursos dos Óscares eu-não-estava-a-contar-com-isto-estou-tão-emocionado...), digam-me: algum dia um tripeiro de gema (que, antes de tudo, desconfia que 'quem parte e reparte' e tal e de que a capital anda sempre a ver se nos trama e a ficar com o pilim todo lá em baixo...) vai votar num gajo que troca o Porto por Lisboa e depois volta como se não fosse nada, ou numa gaja que só vem se o cargo for importante?

Isto para mim está na mesma linha ideológica das (anti-democráticas) exigências de maiorias absolutas do nosso primeiro ou com a escolha brilhante do-outro-que-equivale-áquela-altura-em-que-o-artista-do-poço-da-morte-diz-e-agora-sem-mãos ...

Estará tudo doido? E eu é que sou lírica?

... Aparentemente, o PS despreza a luta pela Câmara Municipal da segunda maior cidade do país - entrega os pontos e cumpre o calendário. Ou não tem quadros, ou não tem ideias, ou não tem portuenses. Qual das hipóteses a mais assustadora...

... Ou então quem faz as listas (as listas para tudo o que é importante são seeempre decididas em Lisboa... depois queixem-se...) não percebe nada de nada da Aldeia dos Gauleses...

.

Sexta-feira, Junho 26

sandokan... à abordagem!!!!


( ... e agora, será que a manuela moura guedes é despedida?? será que volta para o parlamento (não se esqueçam que a senhora foi deputada do PP...)?? será que continua na TVI e deixa de dizer mal do Sócrates?
... NÃO PERCA OS PRÓXIMOS EPISÓDIOS... )

(fotomontagem by miss red =)

.

Quinta-feira, Junho 25

São João vs Santo António


«Sou uma sardinha», diz o manjericão.
Rosa ficou a virá-las e Rui que-não-frita-um-ovo
rendeu-a na grelha com ar entendido.
Jantar comunitário ora-cozinho-eu-ora-lavas-tu,
e nós a descascar pimentos - há quem se apaixone por muito menos.

Sangria
-a-saber-a-sumo-que-bate-de-mansinho,
(com os cumprimentos do Martinez-alquimista),
sardinha da boa com broa (da que não há em Lisboa)
e caldo verde puxadinho do Compadre.

Música de intervenção from the boss, pois claro,
que já vamos levar com pimba que chegue...
(Marante e su capachinho nos Guindais, logo mais.)

Balões largados, bailaricámos - era a Inês a rodar o xaile de Biáná,
que nunca mais voltou da batalha.
Ai se nos perdemos, preocupa-se a Ju (com um estrangeiro maravilhado no bolso.)
Não faz mal, não faz mal, a palavra-passe é Mi-ra-gai-a, e até já...

A revolução será uma festa sanjoanina,
com a gente a andar pelas ruas e os carros pelos passeios,
e nós a martelarmos as cabeças (das miúdas giras)
a falarmos com quem não conhecermos,
e a não dormirmos à noite,
a dançarmos
até ao amanhecer orvalhado,
de volta ao Casarão
de mãos dadas à luz azul.


Já ganhou...

.

Terça-feira, Junho 23

UNDER CONSTRUCTION



Consta que um dia o Siza chegou à faculdade, ainda em construção, olhou para o puxador (também desenhado por ele...) a ser aplicado numa porta e disse 'não está como eu sonhei'... e rabiscou outro puxador e mandou fazer - é capaz de ser mito urbano...

Hoje fiz uma entrega à mão levantada, que é como quem diz: desenhei à mão plantas, pormenores e perspectivas de coisas que é preciso discutir o 'como executar'. Passar um projecto para quem o vai fazer é difícil - a maioria das pessoas que trabalha em obras ou nem sabe ler os desenhos técnicos ou não olha para eles atentamente. E os arquitectos, em geral, não sabem 'fazer', portanto se calhar explicam mal e de forma muito formal, nos belos desenhos técnicos muito bem dobradinhos...

(Certo: um projecto de execução bem feito e bem detalhado permite maior controlo de custos, a comparação de orçamentos, os concursos de preços, etc. Um descanso e uma poupança (evitam-se as 'derrapagens'). Essencial em obras de raiz. Mas, numa recuperação de uma casa antiga, há sempre tantas surpresas e alterações de ultima hora... que para alguém prever seja o que for ... terá de estimar 'por cima' os orçamentos, para não arriscar e porque nunca sabe o que se vai encontrar... )


Processo: projectar e discutir e explicar e a aprender, das 8 às 9 menos um quarto - impossíveis antes do pequeno almoço.

Apostei em pôr 'quem faz' a perceber bem qual é o objectivo final, e porquê. E como é a distribuição de funções na casa, e qual será a cor e a textura e porque é que aquele cano não pode mesmo passar ali
. A decidir as últimas coisas em função das incompatibilidades e dificuldades inerentes a uma recuperação-low-budget...
Tenho andado a discutir muitas coisas a partir de desenhos à mão no caderno que passo a vida a rabiscar, milhares deles, todos sobre a casa, além das plantas e cortes gerais feitos em computador que entreguei há tempos, e para os quais eles não olham...


Hoje, olho para o início da futura cozinha... e está como eu sonhei. Calha bem porque se não estivesse azar o meu... =) Telefonei ao fim da tarde a dar os parabéns, eu que já vejo tudo onde só está um-degrau-da-tal-base-do-tal-móvel-'de-obra'. Ele, que também gosta de 'casas velhas', respondeu, contente pelo reconhecimento do bom trabalho:
'obrigado, sra. engenheira'...

(na volta ainda era um elogio...)

=)

(...Quando eu for grande e auto-organizada no trabalho hei-de dividir o tempo às metades: metade a desenhar, mais à mão do que a computador, e metade a ir às obras, ou em lojas de materiais ou em investigações e especializações (da carpintaria às electricidades, ao desenho de luz ou aos materiais de construção em 'terra' como o adobe ou a palha ou a taipa, há tanto que aprender...) ou em leituras na biblioteca ou a ver as obras dos outros. Não mais a ditadura do autocad e das quatro paredes. Aprender em todo o lado e comunicar de muitas formas.)


.

Sexta-feira, Junho 19

chapéus há muitos


Ele há muitas formas de controlar uma estrutura.
No caso do Benfica, ao que diz o Bagão Félix
(senhor economista a quem podemos agradecer o fantástico código de trabalho que temos!!! ),
benfiquista e se calhar até bom pai de família
(será que tem filhos aos recibos verdes que desejou a mais de um quinto dos trabalhadores? ),
esta queda dos orgãos sociais do Benfica para se anteciparem as eleições é estatutariamente admissível mas 'carece de explicação profunda'.
(tal-qual o tal código de trabalho...)

Pois é: antecipam-se as eleições, não se dá tempo para a preparação de quaisquer listas alternativas e PIM, anula-se a concorrência. AKA (Also Known As)... chapelada... Eu, que não sou benfiquista, acho que isto dos esquemas-chapéu tem que se lhe diga. Então por exemplo, assim como exercício de estilo, como é que eu tomava o Benfica de assalto??

Fácil: arranjava assim muitos, muitos, muitos novos benfiquistas, e doutrinava-os direitinho para eles alinharem comigo, (se calhar prometia-lhes uns tachitos ou assim), e afogávamos a concorrencia em eleições legitimíssimas! Eu mandava, eles tinham os tachos, tomávamos conta da estrutura e os outros eram menos e bem poderiam protestar que não interessava nada... Legal como a imperial. Que tal?

... O único problema é que já há muitos benfiquistas. Se fosse uma organização mais pequena era bem mais fácil... Ou, quem sabe, se se pudessem inventar benfiquistas... Será que se pode votar por correspondência nas eleições benfiquistas? Assim, sem ser por estar doente ou por algum factor pontual-extraordinário? Assim só decidir que se pode votar em casa e pronto??? Isso é que era...

... É que se se pudesse, eu inscrevia o meu gato, o primo e a senhora do café que anda sempre de cachecol azul-portista, votava por eles na comodidade do meu lar e virava presidente do Benfica!! Limpinho!! Pronto, lá gastava um dinheirito em cotas, mas valia.

...Era o chapéu-xadrez.
(e já se sabe que se não se conseguir antecipar umas quantas jogadas, não se ganha nunca...)

;)

.

Quinta-feira, Junho 18

you are not a saint... *

Já não lembro, quase nunca.
(não, jamais (já-mé) como dizia o outro, não, que o homem contradiz-se e depois falta segurança ao primeiro, que agora anda todo humildades e um amooor d'hooomem e desculpem-lá-qualquer-coisinha-e-espero-por-vós-na-volta-dos-votos...)

Mas, não, de ti só às vezes, condor. E sim, afeiçoei-me a este bailado-do-prazer-em-desconhecê-lo em que tudo passou, numa nuvem que se dissipou ao sol, um dia de primavera antecipada.

Um dia, parecia que a cidade não chegava para nós os dois, parecia que ocupavas todo o espaço e o horizonte - e depois, magicamente, as águas apartaram e eu passei para o outro lado sem olhar para trás, a riscar atrás de mim o limite do meu chão, Tordesilhas new age.

... A casa cresce e o Jorge fez um filho - já não cai pelos S. Joões em bailados desesperados que nós éramos e tentávamos proteger até fazer sangue. Foi tudo há muito tempo e tu também, e vê lá, tomei-me de amores por alguém que também gosta do Hermeto e que também lá estava, há quatro tempos no nosso tempo, na multidão desconhecida no castelo...




* (palavras da bela Marta que comigo partilhou amores)

Quinta-feira, Junho 11

santo antónio vs são joão


Preguicite solarenga e pôr do sol no Adamastor. Copos pelo bairro, noite dentro. Exposição do Pancho Guedes (arquitecto ge-ni-al, tuga, africa-meets modern) no CCB/Berardo. Estreia da peça da Mala Voadora, Chinoiserie, no Maria Matos.
e o tal Santo António...

If you want to kill me I'll be there.

.

Quarta-feira, Junho 10

os escravos do tempo


Os despertadores deviam ser, como quase tudo neste mundo, ao contrário do que são: devia marcar-se o tempo que se quer dormir - não quando se quer acordar. Marcava-se só: 8h. ou 9, ou 10... E o dia seguinte começava depois, para cada um à sua maneira.

Uma vez o Adalberto Dias disse-me que tinha sono em atraso desde o fim do curso. Achei que ele estava a exagerar. Não estava. Porque além de dias de descanso, nas férias é preciso tratar-daquelas-coisas-que-nunca-posso-porque-tenho-um-trabalho-sincronizado-com-o-das-outras-pessoas-todas... 'o resto' que fica para trás nos 'dias úteis'. Adulthood is a bitch.

'Dias úteis', raio de conceito. É para as criancinhas estarem com os pais? A mesma teoria peregrina que instituiu as férias em Agosto como panaceia universal, com tudo mais cheio, mais caro e mais quente? E que tal se os pais trabalhassem menos horas e estivessem mais com as criancinhas todos os dias e não só de 7 em 7 ou um mês por ano??

Certo era se todos os trabalhadores pudessem gerir e decidir todos os dias em que não trabalharão num ano, marcando-os segundo as suas necessidades e as suas vidas - se somarmos os fins de semana às ferias já dá para uns tempos a sério para viajar, por exemplo, por outro continente, senão nem vale a pena a viagem... (isto ainda por cima é um argumento ecológico, que ainda vamos pagar muito caros estes aviõezinhos poluentes quase à borla para escapadelas de uns dias para o outro lado do mundo...).

Por mim os dias eram todos iguais, fora os feriados importantes (que num país laico não deveriam estar ligados às festas religiosas católicas, é um abuso, podiam ser relativos às estações e solestícios e equinócios e vindimas ou outra coisa qualquer...) e todos os escritorios, lojas, fabricas, bibliotecas, escolas, etc, estavam abertos todos os dias, por turnos, mais horas do que é o nosso costume, talvez 2 ou 3 turnos de 6 horas (hey, I'm an afternoon/evening kind of gal...). Cada pessoa trabalhava um desses turnos, no máximo, como horário completo, todos os dias, e tinha sempre tudo aberto muitas horas além do seu proprio horario laboral para tratar dos seus affaires... Minha gente, o povo não gosta de shoppings, gosta é das lojas/instituições/equipamentos abertos quando tem tempo livre! So give the people what they want... and create jobs!!!

(nota: pressupõe-se a criação de tectos salariais e redistribuição efectiva do dinheiro que há para termos salários entre mínimo e máximo de 1500 a vá, 3000 euros...)

...Acham que era muito prejudicial para a 'produção'? As pessoas estavam mais descansadas, trabalhavam melhor e sentiam-se mais livres porque não estavam preocupadas com o ir as compras antes que feche o supermercado e ir buscar o joaquim ao infantário, geriam o seu tempo, faltavam menos, desorganizavam-se menos, estouravam-se menos...

... E acabávamos com as horas de ponta, os domingos e as segundas feiras... =)

.

Domingo, Junho 7

maioria absoluta para a abstenção


(foto tirada hoje à tarde, numa rua do Porto)

Fui a votos. Parece-me uma coisa muito simples, esta, de votar. Armam realmente uma grande confusão à volta disto. Nada contra, fora as carradas de dinheiro que isto custa... mas parece-me exagerado. Os políticos perdem imenso tempo a dar beijos a velhinhas. Os comícios estão fora de moda e começam a ser só frequentados pelos que já se conhecem todos há que tempos das políticas - convido os que até estão a pensar em votar BE para virem comigo ao comício e eles riem-se e dizem que não, que disparate, agora um comício...

Parece-me que, (com as devidas dúvidas quanto ao controlo do sistema informático e das possíveis fraudes associadas), devíamos fazer isto todas as semanas, de mês a mês, no máximo. Não era preciso esta confusão toda, esta cerimónia entre o cidadão-contribuinte e o Estado. Se pudessemos confiar na fiaibilidade dos dados e na sua não-manipulação, (pá, mas caramba, se confiamos o sistema económico aos sistemas informáticos... =) podíamos ter mesas de voto electrónicas em cada junta de freguesia e ir lá votar aos domingos: nada muito complicado, uma coisa corriqueira a fazer, banalizada e sem 'campanha eleitoral': quer que o horário de trabalho mude para 60 horas? quer um tgv porto lisboa? quer a legalização das leves? quer mais um shopping? Isto nem é original nem difícil de fazer. É só querer.

... o que fosse aprovado 'baixava' ao parlamento para ser legislado. A televisão pública, os media, as juntas de freguesia, as câmaras e os outros organismos publicos organizariam debates semanais sobre os temas, as pessoas iam e viam e participavam. faça você mesmo...

Elegeríamos os partidos para o governo face às perguntas que eles proporiam colocar às pessoas - nós propomos que nos proximos 4 anos se façam estas e aquelas perguntas e nos foquemos mais neste ou naquele assunto... Ainda por cima era poético, gente a mandar que não tenha a mania que sabe tudo e que coloca questões em vez de decidir pelos outros... Claro que isto sem anular que petições com elevado número de assinaturas fossem condição suficiente para levar votos uma qualquer matéria...

Aí, talvez as pessoas tivessem mais vontade de votar. À minha volta, muitos não estão sequer recenceados (não porque se estejam a marimbar mas porque se sentem utilizados pelo sistema eleitoral e politico) ou, os que até votam, são pelo menos muito cépticos quanto à participação política em partidos...

Abstenção? Gravíssimo. Mas é melhor que 60% da população vote e decida como quer viver, dia-a-dia, decidindo muito mais coisas, do que serem apenas 785 deputados no parlamento europeu a representar 500 000 000 pessoas. É sempre melhor, e tem mais margem para melhorar - se forem as perguntas certas e tiverem repercussão directa sobre o futuro, as pessoas vão querer responder e tendencialmente diminuirá a abstenção... Não?

(muitos, muitos parabéns, entretanto, ao Miguel, à Marisa e ao Rui Tavares!!! Genial!!! ... dentro do panorama da direita a subir a nivel europeu e do PSD a ficar à frente por inércia e ineficácia total do PS, a eleição de 3 eurodeputados pelo BE é a única boa noticia da noite =)

.

Quarta-feira, Junho 3

de ofélia a marilyn



À fome, os meus olhos pediram à imaginação uma ajudinha para te redesenhar. Pensei-te até te gastar e começares a ficar desbotada e difusa - e eu fui-me assim entretendo a pintalgar-te nas horas vagas, das cores que gosto, até te transformar numa marylin-povera-popular-psicadélica, elevada ao cubo num qualquer museu bem comportado. Peço desculpa, menina, eu não sei tocar-lhe de outra forma que não seja este abanar repetido a-ver-se-soltas-peças-ou-se-és-uma-só-e-partes...

(nunca se sabe se não será preciso desmontar-te um dia
para te levar para outro lugar
ou para passar o tempo
ou limpar por dentro...)

Na verdade, há que dizer que só andava a ver se te via de feito e enfim finito - fazia-me espécie tu pareceres assim um ultracongelado sempiterno e sem maleitas. Então, pus-te em cima da banca e fiquei, algo sádica e pacientemente, a ver o gelo derreter-se e tornar-te carne macia e editável - antes isso do que perder-me de amores por um douradinho de pescada...

Gostei-te um bocadinho menos, é verdade - defeitos são diferenças de que eu não goste, e não mais. Mas agradeço esta distanciazinha entre - a brecha em que me reencontro e em que posso, finalmente, ser sozinha, só eu outra vez (este olhar-te de longe, Marilyn, do outro lado da sala...)

Desdramatizo: teremos, no máximo, um prazo de validade. Como tudo.

Aliás, gosto mais de pessoas que de santos... (primeiro Santo António, e depois S. João...)

.

Domingo, Maio 31

o cheque em branco

Começo os jornais pelo fim. Assim dá para ler as notícias lúdico-cómico-desportivas primeiro, que preparam para as outras, depois geralmente vou para as mais de longe, pela perspectiva geral, ganhar balanço para a tragicomédia nacional política-bancos-crise. Parece-me bem assim e ando aos saltinhos pelo jornal todo se for preciso...

Estava eu a ler o Rui Tavares a apelar ao voto ( é o número 3 da lista do Miguel ao Parlamento europeu e que poderá ajudar a eleger no dia 7 de Junho, numa mesa de voto perto de si) ... e por coincidência, na página do lado, um senhor chamado Luis Campos e Cunha (ex-ministro-das-finanças-sócrates-ex-vice-governador-do-banco-de-portugal-docente-catedrático-doutorado-em-columbia-tra-la-la) dizia que abstenção nunca mas voto em branco sim, que é um óptimo protesto... E que bom, bom, era se o voto em branco tivesse peso - se para eleger um deputado fosse preciso um número fixo de votos relativo ao número de eleitores registados e não aos que de facto vão às urnas, se as pessoas não fossem votar elegiam-se menos deputados...

Poois. Era porreiro no parlamento nacional porque pagávamos menos balúrdios em 'representação' 'assessores', 'despesas' e 'reformas-a-pessoal-que-ainda-trabalha-noutras-coisas-e-tal' ...e dá sempre a sensação que há para lá uns quantos que trabalham pouco... E até concordo que era melhor que aquilo de vez em quando não parecesse um plenário de 'prémios carreira política' e trocas de insultos velados a 'voss'xecência', em vez que um sítio onde gente com ideias debate e discute e actualiza as leis e gere os dinheiros que nós todos lhes damos para pagar as contas e distribuir e investir e melhorar a nossa vida...

Mas, assim para já, para já, no pau-pau-pau de eleições que se segue, isso não vai acontecer. Aliás, na primeira ronda, as europeias, até nem tinha muita lógica elegermos menos eurodeputados porque já temos peso a menos no parlamento europeu as it is...

...e se fossem menos eurodeputados os partidos pequeninos não chegavam a eleger ninguém, nãaaoooo eeeeraaaa?

O «não votar em ninguém» não vai alterar o facto de que o número de lugares a preencher na democracia portuguesa e europeia vai mesmo ser dividido pela proporcionalidade dos que escolherem um programa e um grupo de pessoas para os representar. O não votar em ninguém é deixar que os outros decidam por ti.

(Depois o número de votos em branco vai aparecer num frame na televisão e o mundo segue a sua programação habitual...)

... No dia 7, vai vai ser assim: muita gente irá à praia, muita gente vai dizer «caga nisso, além do mais é prá europa, não interessa», e nem lá vai (ouve lá, pagaste o teu café em quê?)... depois haverá os que vão e em extremo protesto votam branco e esperam pelo sonho do Saramago versão combinamos todos e vai ser uma bronca enorme e eles vão perceber que isto não está bem...

...E depois há os outros todos, muitos, mais, que vão mesmo dizer:

'pá, pronto, vamos lá votar nestes gajos ou nos outros, parecidos,
que a coisa ainda se aguenta,
olha lá se vêm aí os esquerdalhos com aquelas ideias do socialismo a sério...
pá, ainda dão cabo da economia, ainda nos metem numa crise...
os bancos ainda começam a falir.... (mas...)
as empresas a fechar... (espera...)
o desemprego a aumentar... (hum...)

a erva a crescer para baixo...

Não, não, as sondagens não se enganam muito, geralmente, apesar de nunca ninguém me perguntar nada... ganhará o bloco central (a solo ou em conjunto, business as usual in any case) e continuaremos a tirar o chapéu a quem rouba milhões, como se isso fosse admissível, e a premiar gestores incompetentes e a aumentar os impostos depois das eleições (pois claro) e a assassinar qualquer hipótese de justiça social...

OU NÃO. (e ainda somos nós todos que decidimos, se decidirmos decidir...)

(blog do rui tavares está aqui e eu vou lendo e é bom irmos vendo o que se passa com as pessoas e o que elas pensam do mundo. o do miguel portas está aqui. é porreiro isto da internet e tem que continuar assim, pública e livre e isso é uma batalha que se decide «na europa» ... e esta é uma 'bandeira' que não serão as direitas ou os adireitados a defender...)

Sábado, Maio 30

SERÁ QUE O GUARDIOLA É O NÉMESIS DO MOURINHO??


... tem aquele ar santinho de menino de coro... todo humilde e justo (???)... obcessivo com o trabalho, dia e noite... mas depois é amigo de escritores e intelectuais e tal... o tipo era jogador e passou de treinar a 'B' do Barcelona para ganhar a copa e o campeonato e a champions e tal e coisa com a equipa principal...

... e o mourinho, todo trendy-rude-boy-e-ainda-faz-anúncios-como-o-cristiano-ronaldo

(assim chamado, diga-se, em nome do Ronald Reagan, vi eu a mãe de tão ilustre e premiada criatura a dizer, ou talvez aquilo fosse uma montagem, podia ser, ainda se vão vendo umas coisas de pasmar e eu pergunto-me se ronaldo assim porquê cristiano, então?)

...todo mauzão e de sobretudo caríssimo, que também ganha tudo mas nunca tem culpa de nada e está sempre contra o mundo e sempre em mind games com os clubes e os árbitros e a comunicação social e tudo...

(... tinha que ter estado na aldeia dos gauleses, primeiro, não era?)

Assim ao lado do outro ainda parece pior e mais mau e mais rude-boy-slick-007, shaken, not stirred...

As gajas e os bad-boys, cruz credo. Lindo, ao loooonge.


.

Quinta-feira, Maio 28

a home is not a house


casa velha
casa nova
casa em tabique
casa em granito
sem casa
com casa
muito,
pouco,
nada.

(home is where my lover is.)

Segunda-feira, Maio 25

amanhã há de ser outro dia

olá,

apanhas-me assim atravessada por um dia do mundo de lado, com ele a trespassar por mim - as segundas feiras são dias horríveis, pior mesmo só os domingos, quando não são maravilhosos e há sol e bola... mas as segundas feiras nem isso, é só nuvens quando estamos lá fora, e sol depois, é o mito da culpa pelos prazeres dos dias inúteis e redondinhos a cobrar-nos em tempo e em chatices redobradas. apanhas-me depois de um dia assim, cheio de pequenas e grandes coisas... pele e músculos e instrumentos cortantes renascem a casa...

.

Sábado, Maio 23

nem vital nem rangel VOTA MIGUEL!!!


Quinta-feira, Maio 21

« o jogo sábio, correcto e magnífico dos volumes dispostos sob a luz. »


... Esse jogo é a arquitectura, achava o Corbusier. Moldar a luz por entre as paredes e os espaços. Ou, no caso de uma recuperação, talvez o adaptar a cada espaço e à luz já existente as funções que há em viver-(n)uma-casa. E sublinhá-las, com uma luz, para quando o sol já não entra - mais incisiva, mais diáfana, mais dura ou mais suave. Primeiro vêm as ruas, depois só as casas, e o sistema eléctrico é o arruar do jogo da luz e da sombra.

Pus o 'ai se me apetece mudar os moveis de sítio, mais vale por pontos de luz nos centros dos espaços' de lado porque ... afinal, quantas vezes é que eu vou mudar os móveis de sítio, se eles estiverem bem colocados?

Eu andei a recolher móveis daqui e dali, (armazenados em vários sítios há tempo demais, a atravancar outros espaços, a gerência pede desculpa a todos os lesados pela demora, andaram-se a limar arestas até agora...). São uma data deles, antigos, a-ver-com-a-casa, de madeira, todos escuros, todos enormes (e que já não cabiam nas casas já mobiladas do resto da família...). A sério que não me estou a ver a carregar um armário de 200 kgs - ou o que raio que aquela coisa pese, não é exagero, os móveis antigos são enormes, nem sempre as coisas vieram em caixas e em kits... - lindo, velhinho, da tia-avó Nenete, escada-acima-escada-abaixo...

... Então, comecei pôr lá os móveis todos, onde ficavam melhor, na planta e nos desenhos rabiscados, e a iluminar na minha cabeça cada espacinho... a forma como se podia subir a escada e descobrir o sótão, com uma luz no chão, logo ali no cimo, a recompensa pela subida das escadas íngremes. E outra, uma linha suave, à beira do chão, junto à cama, naquela zona mais baixa... Do outro lado, que é mais alto, junto à mesa/estante, na parede, dois candeeiros de estirador, como lá em baixo, sobre a banca da cozinha.

No quarto maior, uma luz pendurada em cima da mesa de cabeceira, com a cama contra um biombo, a partir do qual se organize um espacinho reservado ao vestir e do olhar, com um dos guarda-fatos e a cómoda com espelho, mais um candeeiro por cima desse toucador.

( já agora, cabeceiras de cama viradas para oeste, any feng-shui fans that might read this, é má onda? ... pá, desde que uma bruxa me adivinhou uma paixão, acredito em tudo, por via das dúvidas... =)

Na sala, um candedeiro grande, ao centro. E uma luz no cimo do guarda fatos (para os casacos grandes, mais à beira da entrada), um candeeiro de pousar, de luz difusa e suave, que possa ser 'de presença', para quando se vê um filme projectado na parede, numa meia-penumbra confortável, ou para quando alguém ainda não entrou ... e o último apaga a luz...

Nas escadas, luzes de parede, e no corredor uma fita de luz, escondida atrás do apainelado das portas (umas abrem, outras não), uma sanca. E um projector abaixo da clarabóia, para a 'simular', de noite, a escorrer luz pela parede abaixo, como a do sol que me fez apaixonar por ela quando a vi pela primeira vez...

.

Segunda-feira, Maio 18

erotismo



como é apresentado o conceito de erotismo hoje, assim em versão fast-food-pronto-a-comer-wikipédia-style? para começar, há que notar que o erotismo está subordinado, contido, num capítulo chamado sexo ou sexualidade. Se calhar devia ser ao contrário, mas pronto. adiante...

Erotismo é o conjunto de expressões culturais e artísticas humanas referentes ao sexo. A palavra provém do latim ‘eroticus’ e este do grego ‘erotikós’, que se referia ao amor sensual e à poesia de amor. A palavra grega deriva-se do nome de Eros, o deus grego do amor, Cupido para os romanos, que com suas flechas unia corações, significando hoje amor, paixão, desejo intenso. Representação de Cupido em "Resistência ao Amor", de William-Adolphe Bouguereau (1825-1905)

... depois desta definição que é sobretudo da etimologia da palavra, da raiz cultural, digamos assim, da lenda da coisa, e da sua ligação ao corpo (com uma piscadela de olho à arte e à poesia) seguem-se uma série de conceitos associados ao erotismo por alguma razão, organizados por capítulos (os nomes dos capítulos estão a bold). Cada uma destas palavras é ela própria uma hiperligação que remete para a sua própria definição...

História História da sexualidade humana · História das representações eróticas · Revolução sexual
Actos Relação sexual (Preliminares, Posições) Sexo vaginal Sexo oral (Cunilíngua, Felação, 69, Anilingus) Sexo anal Sexo grupal Fisting Chupão
Masturbação Sexo não penetrativo (Tribadismo, Sumata, Espanhola) Fetichismo
Eventos
Fisiológicos Erecção Ejaculação Fecundação Orgasmo Gravidez
Relação sexual Anatomia e Fluidos Ânus Seios Clitoris Mamilo Pênis Recto Garganta Vagina Fluido pré-ejaculatório Sémen Lubrificação vaginal
Saúde e Educação sexual Contracepção Disfunção erétil Ginecologia hipersexualidade Síndrome da excitação sexual persistente Doença sexualmente transmissível Flatos vaginais
Identidade Identidade sexual Orientação sexual
Direito Idade de consentimento Ato obsceno Estupro Agressão sexual Abuso sexual Assédio sexual Aborto
Relacionamentos e sociedade Incesto Casamento Parafilia Prostituição BDSM Romance Abstinência sexual Atracção sexual Turismo sexual
Indústria do sexo Preservativo Dildo Bomba peniana Vagina artificial Lubrificante íntimo Erotismo Pornografia Vibrador Boneca insuflável Sex shop Videogame para adultos
Cinema
Anexo:Lista dos filmes não pornográficos com cenas de sexo não simuladas


...

... alguém que leia este blog consegue imaginar o que é crescer com esta lista de conceitos à distância de um click, sem ter de perguntar a ninguém?? Assim tudo, tudo??

(não será que esta gente que cresce com a internet e a informação interminável, permanentemente disponível, boa e má, e sobre tudo, será que esta gente não tem os cérebros diferentes de nós?)

... Estes dias vi um toddler, um miúdo de 2 anitos e pico, a pôr sistematicamente a dar o Noddy, em mil versões, no You Tube, para agonia dos adultos presentes (porque aquela música é insuportável, e não me venham cá com comparações aos ministars).
Vi eu. A sério. Imaginem daqui a dois ou três anos. Spooky.

.

Domingo, Maio 17

A Casa do Marquês


Ontem tive o meu dia 'casa da cascata'. (que é aquela história do Frank Lloyd Wright, em que ele esteve não sei quantos anos a pensar como é que resolvia o filho da puta do problema de uma grande casa numa encosta por onde cai uma cascata... e depois de repente percebeu e desenhou tudo num dia e fez uma casa bestial que é essa da foto acima...)

Pronto, assim à minha moda, mais pequenino e singelo, claro, mas ouvi um click e percebi como é que era. Foi assim como dar as últimas voltas no cubo mágico, um 'ah, já percebi' e fazer as últimas voltas muito depressa, depois de tar a olhar práquilo que tempos e de lhe dar umas voltinhas hesitantes...

Dois anos de riscos e rabiscos em cadernos e cadernos e cadernos e insistências e desistências e pequenos passos cheios de dúvidas, as janelas, as janelas... Parto difícil este de refazer-uma-casa-linda-e-mini-tipo-casa-de-bonecas-sem-a-estragar-mantendo-o carácter-dela-antigo-e-ao-mesmo-tempo-não-fazer-'neo'-coisa-nenhuma-nem-nada-muito-à-arquitecto-low-tech-mas-ai-lá-máquina-da-louça-tem-de-ser-pelo-menos-o-espacinho-para-instalar-depois-e sobretudo-muito-muito-baratinho... mais-cores-mais-branco-mais-cores-envernizado-com-velatura-ou-pintado-e-os-paineis-solares-e-o-saneamento-e-o-aquecimento...

... Devia ter feito isto praí daqui a 10 anos. Not wise. Sempre a carroça à frente dos bois, beijar primeiro e pensar depois. São ideias a mais, referências a mais, nenhum cliente com ideias feitas e um programa e objecções e limitações... em casa de ferreiro...

Mas já está.

Resolvi olhar para a forma como de facto uso os espaços, sem pensar em convenções - e eu só uso o quarto para ler, dormir e vestir, e eu quero comer numa cozinha/laboratório tradicional a dar para o quintal, com uma grande mesa e móveis 'de obra' - e só convido para jantar quem tiver à-vontade suficiente para comer num espaço assim, sem formalidades e que ajude a preparar a coisa ou que lave a loiça. =)

Um atelier à entrada da casa - onde se trabalhe, leia e ponha música para a casa toda, um escritório informal, ligado ao salão de jogos, a sala para reunir à vontade, com pouca coisa além de um sofá para dormir a sesta e um sítio à beira da janela para beber chá e pensar na morte da bezerra nos dias de inverno. E uma oficina de madeiras/lavandaria/sala de maquetes na cave, ligada ao laboratório e ao quintal. Quero usar a casa toda e não só recolher num espaço, permanentemente, e quero que as pessoas possam estar na mesma casa, mas em espaços diferentes, todos bonitos e com música no ar. E andar de pantufas ou de meias em chãos quentinhos de madeira (que isso de andar com os mesmos sapatos nos passeios sujos de merda e de lixo e de cuspidelas... e depois andar com eles em casa... yuck).

A Casa do Marquês - que eu acho que as casas precisam de nome como as pessoas, como o Estaminé, ou o Casarão, ou o Senhorio ou o saudoso Super-Piso. Pois já tem nome e vai ser o ninho, a sala de festas, o sítio dos filmes, das comezainas cá fora no verão, da minha mini-horta (vou precisar de ajuda nessa...), dos amigos e da comunidade (que eu morar sozinha, não, obrigada). O início da revolução. Era velhinha e aos pouquinhos vai ficando nova. Vai remoçando, com amor, como diriam os compadres brasileiros...

.


Quinta-feira, Maio 14

em maio sai à rua em junho continua


quase ninguém falou disto porque o Vital foi a banhos. mas isto é que era notícia. may day porto 2009.

Quarta-feira, Maio 13

buy green, buy fair, buy local, buy used, and most importantly, BUY LESS



Não, uma camisola não pode custar 10 euros, durar seis meses e ir para o lixo porque feltrou ou se estragou ... nem pode, ainda por cima, achar-se que isso vem mesmo a calhar já que a moda vai mudando e assim sempre se acompanham as tendências. Não pode ser.

Porquê? Porque a tal camisola é feita de fio que terá tido de ser produzido ou plantado, fiado, tingido, tecido, cortado, cosido, acabado, embalado, transportado, se calhar publicitado, e depois vendido.

Ou seja, 'X' (muitas) horas de trabalho humano nas várias fases, mais as máquinas e os alugueres dos espaços utilizados e tal e coisa MAIS os transportes - sendo que muitas vezes os produtos têm partes/matérias primas vindas de vários países ou até de diferentes continentes...

Se a dita camisola custa 10 euros quer dizer que a produzem em quantidade e conseguem rentabilizar os custos à conta disso, pois claro - mas sobretudo quer dizer que as matérias primas foram mal pagas e o trabalho que a produção envolveu, também. Made in India, Bangladesh, China, Indonesia...

Mais concretamente, quer dizer que a nossa bela camisola nova foi paga não por nós, mas pelos que vivem pior do que deveriam para a produzir ou a quem são roubados recursos (naturais, ou de direitos sociais, ou de direitos humanos).

... E obviamente, que as 'nossas' industrias texteis têm uma de duas opções: ou baixam os custos de produção (ou seja, os salários/direitos dos trabalhadores) para acompanhar a maré, ou então fecharem as portas, aos montes, como tem acontecido... É o tal 'progresso' e a 'globalização' a piorarem a vida de toda a gente, no primeiro ou no terceiro mundo, em nome da competição global. Made in Portugal...

Eu, por mim, dispensava essa competição e a moda da estação e preferia ter os designers daqui do burgo a desenhar coisas fantásticas (daquelas que me fiquem sempre bem, agora ou daqui a 10 anos), ter meia dúzia de outfits que me servissem por muitos e bons anos e pronto... Sim, sim, roupa bem desenhada e executada, pois claro, e nada de andarmos todos iguaizinhos (desculpem lá os defensores dos uniformes, eu-não-gosto) ... bonita, durável, confortável, resistente e em materiais integralmente recicláveis. E de produção E comércio justos. É difícil?

(...E não, no sistema que temos, o 'comprar caro' não é sinónimo de que os produtos sejam 'fair trade' - o que por aí à mais é marcas parolas a esmifrar os salários dos produtores e trabalhadores e depois a 'vender a marca', o crachá ou a etiqueta por uma fortuna hipócrita e insultuosa para qualquer consumidor crítico que tenha noção das margens de lucro que suas excelências têm... )

No meio de todo este consumo acelerado (mata a fome, consome, consome, consome...), nos EUA, parece que apenas 1% do que foi produzido, transportado, vendido e comprado hoje ainda estará a ser utilizado daqui a 6 meses. Os outros 99% transformaram-se em lixo... Energia desperdiçada, recursos desbaratados... e um problema ecológico para já e no futuro.

As coisas são produzidas para falhar, para partir, para se estragarem em pouco tempo, (a máquina da roupa dos meus pais tem mais de 30 anos, as de agora duram praí 10 ou nem isso) ou para apenas se tornarem desactualizadas ou démodés para serem substituídas por outras, novas, com outro aspecto para que se veja de longe que é um artigo novo (para estimular os invejismos dos vizinhos...) Nada disto acontece por acaso...

Acham que não é propositado e consciente, este sistema das coisas?? Pois então cá fica a citação assustadora de um tal Victor Lebow, economista famoso, pós 2ª Guerra Mundial, que eu saquei do vídeo que inspirou este post, 'The story of stuff' que eu recomendo vivamente e que está aqui. (São 20 minutos mas vale a pena.).

"Our enormously productive economy ... demands that we make consumption our way of life, that we convert the buying and use of goods into rituals, that we seek our spiritual satisfaction, our ego satisfaction, in consumption.... we need things consumed, burned up, replaced, and discarded at an ever-accelerating rate."

... Como visão de mundo é muito triste, como política e em termos ecológicos é suicida, como história (vista assim a meio século de distância é uma explicação clara do nosso paradigma ocidental recente) é uma regressão civilizacional. E não tem feito ninguém mais feliz...

.

Terça-feira, Maio 12

Não respira! Pode respirar...

Milhares de fiéis de todos os cantos do país e do mundo católico, todos juntinhos em Fátima - e dizem as autoridades morais e civis que não há problema nenhum de contágio com a tal gripe A. Dizem eles que as pessoas são vistas nos aeroportos! Ai fico bem mais descansada. Mas eles não vêm a pé, regra geral??

Será que é por ficar mal nas fotografias, o povo todo de máscara? É prova de fé não usarem? Valha-nos Nossa Senhora.

A Santa Sé tem tanta falta de jeito a lidar com epidemias e viroses... Passem lá as máscaras aos peregrinos, just in case, não vá o diabo tecê-las... É que não consta que a malta consiga abster-se de respirar, por mais católico que se seja...

.

Domingo, Maio 10

capítulo quinto



há quem encontre a fortuna e não lhe dê valor
sempre à espera do-que-deve-ser-amor .
há quem esqueça a rega dos amores-perfeitos
e depois chore os pretéritos desfeitos
há quem ganhe a sorte grande (e a terminação)
mas a sinta sempre só prémio de consolação...

eu cá, (já) não.
em mim (re)inventaste a paixão.

(...eram cinco vezes dois corações vagabundos perdidos num bolso caído do mundo... )

.

Sábado, Maio 2

MGM 2009


A MGM desagua na praça D. João I, vinda do Marquês. As praças já se enchem de gente que eu não conheço, porque não andaram comigo na escola e já jogaram outros jogos de computador. Mil e tal pessoas dão um passeio, ouvindo música (sem palavras de ordem além do 'legalizem a maria!!!'), chegam à praça, sentam-se ao sol, conversam, fumam uns, ouvem mais música.

Alguns parecem ter vindo 'sair ao dia', se calhar depois continuam à noite, a maior parte são putos novinhos com todos os aspectos possíveis de imaginar, entre betinhos, freaks, emos, góticos, pintas, rastas e todas as gavetinhas e grupinhos das correntes urbano-portuenses. Notoriamente, isto virou um acontecimento social mais do que um statement político. Ainda assim, eu estou cá porque concordo com quase tudo o que diz o manifesto que estabelece as razões e objectivos da marcha (está aqui, o manifesto). E porque gosto de manifs que são pacíficas e em festa, como esta é sempre, e já vai no terceiro ano. Tal como gosto de ver esta gente toda fora de portas e de dia, e não só em frente ao piolho, à noite...

Idealmente, fazíamos isto todos os sábados - encontrávamo-nos depois de almoço, estávamos juntos e aproveitávamos o dia para relaxar. Nas praças e nos jardins e nos parques. Reclamávamos as ruas e os espaços públicos e as políticas para nós.

Dá que pensar que se juntem mais jovens hoje, a uma marcha APARTIDÁRIA do que ontem no MAYDAY ou nas manifestações sindicais, politizadas quando não mesmo partidarizadas. Makes you wonder...

.

Quinta-feira, Abril 30

mayday, europeias e ladrões de bicicletas 'mix-red'


Ontem fui ver uma discussão sobre as europeias com o Miguel Portas, na sede do Porto do BE . Às tantas, veio à baila o proteccionismo. Sim, sim, é um tema quente, daqueles pouco fáceis em época de crise e gripe e eleições. Mas, num momento em que a globalização põe em causa os direitos laborais «adquiridos» nas últimas dezenas de anos (vide recibos verdes e precariado em geral) temos de começar a pensar que políticas necessitaremos para que as 'trocas globais' de produtos permitam a melhoria da vida dos que vivem pior e não a pioria de vida para os que vivem mais ou menos...

Ainda não conseguimos que as trocas de produtos, à escala global, sejam feitas em condições de igualdade. Não custa o mesmo produzir um balde em Portugal ou na China. E, na maior parte das vezes, a variação do preço dos produtos é o custo da mão de obra e do trabalho que implica essa produção, que em muitos países vale pouco dinheiro e nenhuns direitos sociais. E essa produção barata põe em causa a viabilidade das produções em locais onde os trabalhadores (ainda) têm (alguns) direitos. Como nivelamos por cima e não por baixo?

Este artigo dos Ladrões de Bicicletas também vai por essas perguntas, por esses graus de cinzento que teremos de criar, entre o proteccionismo acéfalo e nacionalista/umbiguista, de protecção grupal, e o sistema de trocas desenfreado que temos hoje e que não atende às necessidades e direitos dos homens que produzem nem pergunta que rios se poluem durante essa produção ou como se tratam os resíduos que o produto provocará quando a sua vida útil terminar...

Don't ask don't tell
e cabecinha dentro da areia quanto às produções humanas (ou quanto à miraculosa multiplicação do dinheiro pelos bancos) só nos levam a crises como esta. Temos a obrigação de perguntar quem, quando, quanto, como e porquê, e generalizar um sistema de trocas justo, à escala global.

De facto, os Países de primeiro mundo têm, sim, de 'pagar' aos países in-desenvolvidos, para que estes possam cumprir exigentes regras produtivas - humanas, ecológicas e sociais. Porque, senão, somos nós que seremos (estamos a ser) achinezados e teremos (e temos) os direitos ainda temos de 'cabeça a prémio'. Do direito deles a ter direitos depende o nosso direito a ter direitos - e já produzimos o suficiente para vivermos todos mais-que-bem, é só uma questão de distribuição...

Amanhã há MAYDAY, no Porto também, e é bom que tomemos este 1º de Maio e o transformemos num dia sobre isto - a reunião é ao meio dia mais coisa menos coisa, na Praça dos Poveiros. Está tudo misturado e temos que começar a resolver isto por algum lado. Até amanhã...

manifesto surrealista III

... err... e parabéns ao PSD por, a meio deste ano tão cheio de eleições e solicitações políticas de todo o tipo, ter encontrado o tempo e os recursos para uma tão bonita campanha e hotline contra o suicídio!!

.

Domingo, Abril 26

"miss red carnation" 's digital revolution



O essencial é questionar o Sistema Operativo e não há grande forma de fugirmos a isto. Eu até nem queria para já estas soluções radicais, precisava de mais tempo para pensar nestas mudanças todas - mas o mundo raramente me deixa ir pelo seguro.

O computador morreu de morte morrida e sofrida - porquê ter um virus quando se pode ter muitos, num instante, regados a florestas de pop-ups pornográficos e rios de ficheiros corrompidos, revoltas digitais ou oportunismos contra as 'janelas' que nos impõem? Estava tudo estragado, tinha mesmo de formatar o disco para recomeçar do zero...

É um toshiba azul, velhinho, resistente, com um disco-coração pequenino em que só cabe um paradigma de cada vez - portanto atirei-me assim de cabeça no 'ubuntu' desconhecido ('I am what I am because of who we all are') e depois logo se vê. Se não conseguir adaptar-me, olha, paciência, lá terei que voltar atrás e recomeçar no sistema antigo, o que tenho eu a perder?
querer acreditar correr cair chorar levantar crescer ...

Por agora, arrisco recomeçar num código diferente, de novo uma estrangeira que não entende a língua e estranha o interface, disponível para aprender. Vamos lá então, em busca do mundo sem virus nem esquemas de marketing monopolista, esse que prova que quando é dada a hipótese de escolha, as pessoas preferem não destruir mas antes participar e construir sistemas operativos melhores - desde que as regras de jogo e o código fonte do mundo estejam disponíveis e sejam editáveis democraticamente ...

(... ai que pena eu não saber tocar um instrumento nem perceber nada de programação... )

Cooperativa e não hierarquia, colaboração e não sujeição - era mesmo isso, era mesmo isso... a mudança de paradigma para te ter em mim.


( tu tens um computador xpto com dois sistemas instalados e a funcionar em paralelo - e lá vais gerindo os dois mundos como podes, sempre em risco de overload... e eu preocupo-me por ti e vou esperando o reboot do teu sistema num só-meu-teu-mundo, tentando cruzar a distância e ajudar a que não sobre-aqueças, querendo ser o sopro de frio que vai descendo as tuas costas, entre a febre e o frio, pela pele dorida afora... )

.

Sexta-feira, Abril 24

siza superstar

O star-system da arquitectura inclui dois (homens, claro) portugueses: Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura. O que quer que eles façam é incontestávelmente louvado pelos seus pares e pela comunicação social. Seja bom ou mau. Acriticamente.

Independentemente do que se considere sobre a obra destes arquitectos, o fenómeno mediático à sua volta ultrapassa-a e extravasa além fronteiras. Somos mundialmente reconhecidos como uma cidade (e um país) onde se faz boa arquitectura (e ainda bem) também por causa do trabalho deles, louvado e premiado. São arquitectos-estrela cuja assinatura representa uma mais valia económica num projecto de arquitectura.

O Siza estava ontem na Casa da Música a dar uma conferência, e esgotou a lotação da sala suggia em menos de nada... E parece que ainda havia gente aos magotes a assistir à coisa por ecrãs postos cá fora. Siza Superstar. Tem piada isto acontecer na 'casa' desenhada pelo Rem Koolhas, outro arquitecto 'mediatizado' e parte do star system mundial...

Eu cá fui às aulas que ele deu no meu tempo de faculdade, no primeiro ano, e li a interessante entrevista que deu na semana passada... e fico à espera do DVD da tal conferência. ;)

(Já agora, volto a dizer que estes senhores pagam mal a quem para eles trabalha e que fazem falsos recibos verdes e essas coisas todas que agora são considerados paradigmas da 'boa gestão' neo-liberal - óptimas razões para não os por num pedestal, por melhores projectistas que sejam.

A arquitectura não pode ser só projecto - é também política, é visão do mundo e é sem dúvida um posicionamento social. E não venham cá com a desculpa da crise - para eles isso não existe, se enchem de gente espaços para os ouvir falar, se têm filas de gente a querer um projecto de griffe...)

.

Arquivo do blogue